Ben Affleck não está acostumado a receber elogios. O ator venceu um Oscar de Melhor Roteiro original, dividido com seu amigo Matt Damon, por “Gênio Indomável” (1997) muito cedo em sua carreira, o que criou expectativas impossíveis de serem suplantadas. Mesmo sua participação em filmes cultuados do cinema indie (“Jovens, Loucos e Rebeldes”, “Procura-se Amy”, “Hollywoodland”) são desprezadas diante dos blockbusters de qualidade discutível (“Armageddon”, “Pearl Harbor”, “Demolidor”) e bombas indefensáveis (“Contrato de Risco”, “Menina dos Olhos”) de sua carreira.
Levar um pé na bunda de Jennifer Lopez, ex-noiva e parceira nos seus dois maiores equívocos cinematográficos, tampouco ajudou sua imagem na mídia. Mas tudo isso é passado. Casado com outra Jennifer, a atriz Jennifer Garner (da série “Alias”), que conheceu no set de “Demolidor” (2003), pai e diretor de cinema, Affleck agora pode comemorar uma nova etapa em sua vida.
Diante dos elogios rasgados da crítica para seu novo filme, “Atração Perigosa”, que ele estrelou, escreveu e dirigiu, o sentimento de satisfação por essa nova fase é expresso com um singelo: “Estou aliviado”.
O filme estrelou em 1º lugar nas bilheterias dos EUA e fez mais de um crítico americano sugerir seu nome para uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor. Exagero? Não para os americanos, que adoram uma história de superação e volta por cima.
A pré-estreia de “Atração Perigosa” aconteceu no Festival de Toronto. Em entrevista coletiva concedida no evento, Ben Affleck se declarou impressionado pelo próprio sucesso.
Cercado pelo elenco da produção, que inclui nomes como John Hamm (da série “Mad Men”), Chris Cooper (“O Reino”), Jeremy Renner (“Guerra ao Terror”), Rebecca Hall (“Vicky Cristina Barcelona”) e Blake Lively (série “Gossip Girl”), ele comemorou por ter conseguido contar com os atores que tinha em mente desde o início.
“Tive muita sorte com este filme. Escolhi quem queria, e todos os que eram minha primeira opção disseram ‘sim’. Fiquei aliviado por pensar que, independente da qualidade da minha atuação, sempre haveria alguém para me corrigir”, brincou, lembrando que, apesar dos elogios ao filme, continua sendo considerado um ator mediano.
Sobre ser ator e diretor, Affleck disse que “foi muito difícil fazer os dois”. “Ainda sou inexperiente como diretor, e precisava ter mais tempo para dirigir. E atuar tira tempo. É algo difícil”, reconheceu.
“Atração Perigosa” é seu segundo longa como diretor. A estreia foi em 2007, num thriller igualmente elogiado, “Medo da Verdade”, em que dirigiu seu irmão Casey Affleck. O filme rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Amy Ryan.
Como “Medo da Verdade”, “Atração Perigosa” também se passa na cidade de Boston, onde Affleck cresceu. A trama acompanha um grupo de assaltantes de bancos em um dos bairros mais barra pesadas da cidade, Charlestown.
Affleck reconheceu que, embora tenha crescido perto de Charlestown, nunca se aproximou do bairro, repleto de imigrantes irlandeses. “Já me assaltaram, mas não foi ali. Vivi a poucos metros de Charlestown, em Cambridge, que embora geograficamente esteja bem próximo, é um mundo totalmente diferente” afirmou.
“Ouvíamos sobre este bairro, sobre o código do silêncio. Ao longo dos anos, só foram resolvidos 25% de 49 assassinatos. A ideia que tinha era que alguém podia te matar com impunidade enquanto as pessoas olhavam”, acrescentou.
Ele contou que foi ao bairro, visitou assaltantes na cadeia e conversou com agentes do FBI para trazer o máximo de realismo às filmagens. “Precisava separar o mito do bairro da realidade”, explicou.
Mas também contou que nunca foi seu plano dirigir o filme. “Eu queria viver o protagonista, mas então me ofereceram a possibilidade de dirigir, já que eu era de Boston. Hesitei por um segundo, por medo de ficar marcado como o diretor dos filmes de crime de Boston, mas vi na trama diferentes elementos, como romance, ação, suspense e drama, que poderiam ser combinados de modo pouco convencional e servir de plataforma para um trabalho com chances de se sobressair no gênero. Acho que acertei”.
O único aspecto negativo da experiência, segundo ele, foram os cabelos brancos. “Confesso que agora tenho que tingir os cabelos”, brincou. “Mas em breve vocês verão mais cabelos brancos, pois agora querem ver mais filmes comigo como diretor”, revelou.
A sequência da carreira de Affleck como diretor pode ser a adaptação da novela “Replay”, escrita por Ken Grimwood. O primeiro roteiro dessa adaptação está pronto há mais de 20 anos e estrelas como Brad Pitt e Julia Roberts já se interessam pela história.
A trama centra-se em um homem de 45 anos que tem um ataque cardíaco quando tenta impedir um assassinato no Central Park, em Nova York. Só que, em vez de desencarnar, esse herói falecido fica preso em um eterno “replay” de sua vida, a partir de quando ele tinha 18 anos, mas com sua memória intacta.
Outra possibilidade é “The Trade”, sobre uma troca de esposas envolvendo os jogadores do time de baseball New York Yankees, Fritz Peterson e Mike Kekich, nos anos 70.
O agora diretor Affleck espera por novas versões dos roteiros de ambos os filmes para decidir qual será seu próximo trabalho atrás das câmeras.




































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