Artigas – La Redota pondera origem de um mito sul-americano

MOSTRA Alguns filmes com temáticas históricas costumam cometer um pecado cinematográfico: ao utilizar uma linguagem acadêmica e uma estética clássica, podem ficar chatos, principalmente se não contarem com uma montagem que deixe a narrativa fluida. O cineasta uruguaio César Charlone consegue escapar dessa armadilha ao realizar “Artigas – La Redota”, filme sobre José Gervasio Artigas (1764-1850), herói uruguaio, que lutou pela libertação do país contra o colonialismo europeu e até contra o Brasil.

Fotógrafo preferido de Fernando Meirelles (com quem conquistou uma indicação ao Oscar por “Cidade de Deus”), Charlone usa toda sua experiência para dar uma cara moderna a um filme de época. Desta forma, ele abusa da câmera na mão ou a posiciona em ângulos inusitados, além de relembrar alguns estilosos “desenquadramentos” muito utilizados em “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008).

Com a colaboração de Daniel Rezende, “Artigas – La Redota” também ganha uma edição com cortes rápidos e uma montagem que segue duas linhas narrativas.

Em 1884, o pintor Juan Manuel Blanes (Yamandú Cruz) recebe uma difícil missão: munido apenas de algumas anotações e registros, deve criar o primeiro retrato do herói nacional Artigas, morto 34 anos antes. Paralelamente, a história volta no tempo e também segue o espanhol Guzmán Larra (Rodolfo Sancho), espião responsável por tentar matar o líder revolucionário.

Charlone não esconde a admiração por Artigas, olhando-o com carinho e baixando a trilha nos momentos de discursos sobre uma nova América. Ao mesmo tempo, não o coloca o personagem, interpretado por Jorge Esmoris, em altar místico, mostrando um herói cheio de dúvidas e falível.

Mais interessante do que espiar como agia o mito uruguaio, no entanto, é observar a efervescência de ideias do grupo que o acompanha, cada um com uma proposta e uma visão sobre qual seria o melhor sistema político para um país que ainda precisava ser moldado.

Há liberdades criativas – a exagerada independência feminina no período pode ser questionada, mas esta também é a época de Anita Garibaldi – e uma visão assumidamente romântica sobre o idealismo revolucionário.

Apesar de implícitas, não são mostradas cenas de batalhas, o que diminui o impacto da perversidade da luta pelo poder. As alusões, porém, servem para justificar uma das principais propostas do roteiro: levar o espião espanhol – um personagem fictício, importante frisar –, a encantar-se com o inimigo antes odiado. Uma fórmula utilizada de “Apocalypse Now” (1979) a “Avatar” (2009), mas que geralmente funciona.

A segunda meta do filme é mostrar a busca pela identidade tanto de um símbolo quanto da nação que ele representa. Enquanto o pintor Blanes tenta descobrir como “inventar” o rosto de um herói, Charlone lembra que a maior riqueza de um país não é o ouro ou a prata embaixo da terra, mas o povo – índios, negros, brancos, todos – que vive sobre ela.

“Artigas – La Redota” faz parte do projeto “Libertadores”, realizado pela Televisão Espanhola (TVE), em homenagem ao bicentenário dos eventos revolucionários que resultaram na libertação do continente americano do domínio europeu. Serão oito longas sobre os chamados “Libertadores da América”, como San Martín, Simón Bolívar e até Tiradentes – o diretor Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) ficou responsável pela cinebiografia do nosso Joaquim José da Silva Xavier.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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