Angelina Jolie se consagra como diretora

Após ascender ao estrelato como símbolo sexual e se tornar uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood, Angelina Jolie conseguiu rapidamente construir uma imagem de artista engajada, envolvida em causas humanitárias. Nomeada Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU), a atriz usa sua influência para apoiar refugiados em países que passam por conflitos militares. Ao estrear na direção de um longa-metragem de ficção, Angelina aprofunda essa experiência, filmando o drama de um casal em meio ao terrível episódio do estupro em série de mulheres por soldados sérvios durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) em “Na Terra do Amor e do Ódio”.

A obra dividiu a crítica norte-americana, mas conquistou boa vontade, mais pelo tema que pela condução cinematográfica de Angelina. O drama chegou, inclusive, a conquistar uma indicação ao Globo de Ouro 2012 como Melhor Filme Estrangeiro (trata-se de coprodução entre Estados Unidos e Holanda, falado em bósnio e, em alguns países como o Brasil, apresentado com dublagem em inglês).

Angelina levava dois de seus seis filhos ao dentista quando viu no celular o e-mail avisando sobre a novidade. “Eu pensei ‘Isto não pode ser!’ Eu nunca esperei por isso”, surpreendeu-se a estrela, falando com a imprensa na época da nomeação de seu filme de estreia, que trata de um assunto extremamente delicado.

Assim que saiu a indicação, ela divulgou uma nota agradecendo ao elenco e equipe, afirmando que o trabalho coletivo foi responsável pela conquista da indicação ao prêmio. Como se o nome “Angelina Jolie” estampado num cartaz não tivesse importância, ela manteve a humildade sobre a viabilidade do projeto: “Só de ser capaz de conseguir realizar o filme que você gostaria e em seguida obter um distribuidor já te deixa feliz”, comentou para a imprensa dos EUA.

Durante as entrevistas de divulgação, que aconteceram em Nova York em dezembro de 2012, a atriz, acostumada a dezenas de premières com o marido Brad Pitt, confessou que ficou extremamente nervosa e que quase caiu ao caminhar no tapete vermelho. Após a brincadeira, falou sério sobre o que achou do exercício de dirigir um filme. “Senti uma evolução agradável, é um trabalho divertido e tive grandes experiências” resumiu Angelina. “Sempre fui atraída por filmes de guerra”, explicou a escolha do tema, revelando uma certa influência de seu pai, Jon Voight, que conquistou um Oscar por sua atuação em “Amargo Regresso” (1978).

“Na Terra do Amor e do Ódio” também laureou sua diretora com o Prêmio Stanley Kramer, concedido pelo Sindicato dos produtores de Hollywood a longas que abordam causas sociais e humanitárias – tema caro a Angelina e, agora, a sua carreira como cineasta.

Porém, apesar da experiência em áreas de guerra em países como Serra Leoa, Tanzânia, Paquistão, Camboja e Etiópia, ela confessa que tinha pouco conhecimento sobre a crise nos Balcãs. “A situação e o conflito na Bósnia era algo que eu nunca fui completamente capaz de entender, por isso o filme foi também uma oportunidade para eu mergulhar mais fundo e aprender sobre essa questão”, explicou a atriz/diretora, que tinha 17 anos quando começaram os conflitos que desmantelaram a antiga Iugoslávia.

“Na época, eu não tinha ideia da extensão da agonia”, comentou, sobre a limpeza étnica que causou a morte de dezenas de milhares de pessoas, além dos horrores provocados pelo conflito – em especial os estupros de mulheres bósnias por soldados servos. Nesse contexto, a trama, escrita pela própria Angelina, acompanha a paixão entre o soldado sérvio Danijel (interpretado por Goran Kostic) e a mulçumana Ajla (interpretado por Zana Marjanovic). Com o estouro das agressões, eles acabam em lados opostos e o espectador testemunha a devastação de suas vidas.

Se a história por si só já é dramática, Angelina ainda precisou enfrentar alguns problemas em sua estreia na direção, a começar pelo desserviço de alguns veículos da imprensa local, que durante as filmagens informaram que a trama mostrava uma prisioneira que se apaixonava pelo seu agressor sexual. É claro que grupos de defesa da mulher na Bósnia protestaram e repudiaram a produção, e a diretora lamentou o equívoco, principalmente por conta de seu reconhecido histórico com as causas humanitárias.

“Dói quando você se importa com uma região e, especialmente, com as mulheres daquela região, e o filme é sobre a violência contra as mulheres, mas você é acusada do oposto. Você se sente um pouco enojada com isso”, lamentou a cineasta.

Mas esta não foi sua única fonte de dor de cabeça: o jornalista croata James J. Braddock (também conhecido como Josip Kneževi) acusou a estrela e os produtores do filme de plagiarem seu livro “The Soul Shattering”, publicado em 2007, e que também é ambientado na Guerra da Bósnia e traz como protagonista uma mulher que é aprisionada e estuprada por soldados, enquanto um comandante militar, apaixonado por ela, decide ajudá-la a fugir.

O escritor garante que se encontrou várias vezes com o produtor Edin Sarkic para negociar a adaptação de sua obra e se surpreendeu quando viu o filme pronto com a história semelhante à sua. “Isso acontece em quase todos os filmes”, defendeu-se a atriz, sugerindo que se trata de uma coincidência. “É uma combinação de histórias de muitas pessoas. Li muitos livros e assisti a muitos documentários. Mas esse livro em particular eu nunca vi”, comentou em entrevista ao Los Angeles Times.

Essas, no entanto, são as únicas notas negativas sobre o filme que saíram pela imprensa, já que os críticos norte-americanos não repudiaram o esforço artístico. Enquanto alguns textos elogiavam a forma como a diretora conseguiu equilibrar de forma autêntica entretenimento e informação, outros afirmavam que o filme não se trata de um produto oriundo da vaidade de uma estrela do cinema, que já ganhou um Oscar como atriz coadjuvante por “Garota, Interrompida” (1999).

Outro ponto bastante elogiado pela imprensa internacional foi a autenticidade do elenco, formado por atores que tem origem na região dos Balcãs, como o veterano Rade Serbedzija (“X-Men: Primeira Classe”), nascido na Croácia, e Goran Kostic (“Homens e Deuses”), da Bósnia. Diversos integrantes do elenco, inclusive, tiveram familiares que participaram dos conflitos.

“Na Terra do Amor e do Ódio” custou “apenas” US$ 13 milhões e as filmagens duraram 42 dias. Números pequenos e que devem ser bem diferentes de seu próximo filme como atriz – a fábula infantil “Malévola”, que a trará como a bruxa de “A Bela Adormecida”. Angelina tem ainda conversado com David Fincher (“A Rede Social”) para estrelar uma nova versão cinematográfica sobre a vida da rainha do Egito, que deve utilizar como base o livro “Cleopatra: A Life”, de Stacy Schiff. E Luc Besson estaria negociando a participação da estrela em seu próximo e secreto projeto – um thriller dramático com elementos científicos.

Além disso, ela tem outro roteiro em andamento, desta vez focando na Guerra do Afeganistão. Angelina pensa seriamente em seguir carreira como diretora. Será interessante ver a reação do público a esta mudança. Afinal, “Na Terra do Amor e do Ódio” foi lançado legendado, nos EUA. Uma opção anti-comercial, mas que diz muito sobre o tipo de cineasta que ela aspira se tornar.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

1 Comentário

  • thasio Identicon Icon thasio
    10 de dezembro de 2012 | Permalink | Responder

    abordar pontos positivos dos filmes foi muito bom, já que cansei de ler críticas falando sobre o quão a jolie n conseguiu equilibrar o romance do filme blablabla ~~
    a msg foi dada, cara. confesso que fiquei assustado a perceber que a guerra com fundamentos facistas tinha acontecido há apenas 20 anos. foi assustador.
    parabéns. ótimo artigo. :)

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