Andrucha Waddington é um homem corajoso. Imagine se um diretor espanhol viesse ao Brasil filmar a biografia de Machado de Assis e escalasse um ator português como protagonista. Foi mais ou menos o que ele fez com “Lope”. O filme foi rodado num período de nove semanas e meia, com locações em Madri e Marrocos, e retrata a chamada Idade de Ouro espanhola, materializando na tela a vida urbana da Madri do século XVI e a juventude do maior dramaturgo daquela época, em meio a paixões arrebatadoras e desafios às convenções sociais..
“Lope” narra a juventude de Félix Lope de Vega, considerado um dos rivais de Miguel de Cervantes como um dos maiores autores de todos os tempos da literatura espanhola. Mas, apesar de toda sua importância literária, seu nome não é muito conhecido fora da Espanha. O que torna a escolha de um estrangeiro para dirigir sua cinebiografia ainda mais inusitada.
“Esse filme foi feito com a intenção de apresentar Lope de Vega ao mundo”, explicou o diretor brasileiro durante entrevista coletiva de lançamento do filme em Madrid. Aos 40 anos, o cineasta premiado no Festival de Sundance 2006 por “Casa de Areia”, e em Cannes 2000 por “Eu, Tu, Eles”, disse ter assumido sem medo o desafio de tentar popularizar o célebre autor espanhol na América Latina. Missão que inclui a escolha de um ator argentino (Alberto Ammann) como protagonista, atores brasileiros (Sonia Braga, Selton Mello) no elenco e um músico uruguaio (Jorge Drexler) em sua trilha.
Na entrevista a seguir, o diretor brasileiro detalha como encarou o desafio das filmagens e explica a proposta de “Lope”.
Como surgiu o projeto de filmar Lope, um personagem bem diferente em sua filmografia e também sua estréia na direção em uma produção internacional?
Em dezembro de 2005, fiz uma projeção de “Casa de Areia” para alguns amigos, entre eles a produtora Iona de Macedo e o roteirista Jordi Gasull. Ao final da sessão, eles me entregaram o roteiro de “Lope”. Virei a noite lendo, e pela manhã não tinha dúvidas: queria fazer o filme. Fiquei fascinado pela trajetória de Lope e pela possibilidade de abordar, através de um personagem de época, um tema atemporal e universal: a busca de um jovem por seu sonho. No século XVI ou no século XXI, esse jovem tem que se virar e correr atrás – e foi isso que me fisgou. Desde então mergulhei na vida, na época e na história de Lope de Vega, passei anos na ponte aérea Rio de Janeiro-Madri, armando a produção.
E qual o maior desafio de levar a história de um jovem sonhador da Era de Ouro espanhola para o cinema?
A maior preocupação foi não fazer um filme empostado, artificial, com a opulência habitual de cenários e figurinos que, na minha opinião, derrubam as produções do gênero. Eu queria que o público sentisse o cheiro das ruas de Madri da época, que, segundo relatos históricos, se estendia por 30 km. E foi esse cheiro que teria levado Felipe II a construir o Palácio Escorial a 60 km de distância da capital. Eu também não queria atuações afetadas, na forma de falar, de andar, no gestual. O maior desafio foi justamente driblar as marcas de uma grande produção e colocar a dramaturgia e os personagens em primeiro plano. Apesar de uma pesquisa histórica rigorosa e de uma impecável reconstituição de época, em “Lope”, a dramaturgia está em primeiro plano.
Como foi a escolha de um elenco tão amplo, com vários protagonistas estrangeiros?
O processo durou um ano e começou com a escolha Pilar López de Ayala e Leonor Watling. Depois vieram Juan Diego, Antonio Dechent, Antonio de la Torre, Luis Tosar, todos grandes nomes do cinema espanhol. Sempre tive vontade de trabalhar com Sonia Braga, e ousei convidá-la para uma pequena mas nobre participação e ela aceitou de cara. E achei que o papel do Marques de Navas, uma espécie de playboy da época, e maior fonte de humor da história, seria muito bem defendido por Selton Mello.
E como você chegou ao argentino Alberto Ammann para interpretar o papel principal?
Pois é, o tempo passava e só faltava Lope. Desde o princípio, pensei em um ator desconhecido e, apesar de algumas possibilidades, até cinco semanas antes das filmagens eu não tinha o Lope. Foi quando a produtora de elenco me falou de Alberto Ammann, de quem eu nunca tinha ouvido falar, e que estourou no ano seguinte com o filme “Celda 211″. Depois de um longo teste, eu não tinha mais dúvidas: estava diante de um ator excepcional, de limites precisos, com transições sutis e econômicas. Alberto estudou quatro anos com o diretor e preparador de atores Juan Carlos Corazza, o Lee Strasberg da Espanha, que teve entre seus alunos Javier Bardem. Liguei para ele, que me assegurou: “Ammann é um dos maiores atores que já passaram pelo meu curso”.
Lope tem ingredientes fortes – a volta da guerra de um jovem poeta, o início de sua carreira, a relação com os poderosos, a busca de afirmação social e, sobretudo, a paixão por duas mulheres. Como foi o equilíbrio de todos esses elementos?
Sendo 100% fiel à trajetória genial de Lope de Vega, que concentra todos esses elementos: ele foi um poeta nascido em uma classe social baixa, mas era também ambicioso, aventureiro, exímio espadachim, um Dom Juan que usava a palavra para obter o que queria. Ele foi na verdade o melhor protagonista de sua obra, e procurei transitar entre todos esses elementos, que compõem um amplo filme de amor: amor pelo amor, amor pela vida, amor pela arte.
As duas paixões de Lope, Isabel (Pilar) e Elena (Leonor) são mulheres muito diferentes – na experiência de vida, na postura, no temperamento. Como você trabalhou a construção dessas personagens?
Na verdade, elas vivem arcos diametralmente opostos. Isabel, a filha do empresário teatral Velasques, de início parece como uma mulher voluntariosa, “moderna”, mas na verdade vive engaiolada em regras sociais. E, na hora decisiva, ela permanece no esquema que a oprime. Já Elena, a mulher aparentemente engaiolada pela sociedade e pelas convenções, consegue se libertar e abandona tudo para seguir Lope. Essas mulheres tão antagônicas e suas viradas inesperadas são um grande trunfo do filme.
Você fala de um Lope muito jovem, no início de carreira, que ainda não sabia o lugar que ocuparia na literatura hispânica.
Lope foi uma celebridade de seu tempo – deixou mais de 1.800 textos, entre peças, textos e poemas. Ele chegou a produzir duas peças por semana. O teatro era um divertimento popular, de bairro, e a época já conhecia a pirataria. Havia “copiadores” das peças, que no dia seguinte a uma estréia vendiam os textos para outras cidades. O filme mostra Lope em começo de carreira, quando ousa “corrigir” Cervantes, que apesar da fama posterior, só ficou célebre em vida depois da publicação de Dom Quixote. E foi Lope quem estabeleceu os fundamentos de um novo padrão para o teatro espanhol, misturando comédia e tragédia. Ele queria ascender à nobreza e de certa forma conseguiu, graças a enorme popularidade que conseguiu em vida, pois onde está o povo está a nobreza. A vida de Lope foi teatral, uma verdadeira obra de arte.
O que há de real e de fictício na relação Lope-Isabel-Elena?
Os fatos narrados ocorreram de 1583 a 1588, mas no filme, esses cinco anos foram comprimidos para um ano. Lope primeiro se apaixona por Isabel, desafia Velasques para se impor como autor teatral, mas depois ele se cansa daquela submissão, conhece Isabel e foge com ela. O filme acelera esses fatos. Realizamos uma extensa pesquisa e fizemos um filme de ficção não documental, onde 95% dos fatos realmente aconteceram. Nosso principal foco era mostrar um jovem de 25 anos que queria viver algo extraordinário para uma pessoa de sua classe social. Numa época em que muitos escritores pertenciam à Armada Espanhola, Lope abandona a vida militar na esperança de viver apenas de arte, sem imaginar que um dia seria famoso, o Lope de Vega. O filme narra uma espécie de prólogo desse monstro sagrado, os anos de transição de sua juventude para a idade adulta. Um jovem destemido, que acredita no seu sonho, na busca da felicidade e do amor, ou seja, um jovem de todas as épocas.
Você citaria alguns filmes como referência para a realização de “Lope”?
Assisti a dezenas, e a grande maioria me apontou o que não fazer. Pela abordagem de um universo parecido, há quem aproxime “Lope” de “Shakespeare Apaixonado”, mas discordo: meu filme não tem aquela postura teatral. O que mais me inspirou foi “A Rainha Margot”, de Patrice Chereau, principalmente por mostrar ruas sujas, cores sombrias. “Cyrano de Bergerac”, de Jean-Paul Rappeneau, com Gérard Depardieu, e “Amadeus”, de Milos Forman, por motivos diferentes, também foram inspiradores.
Como você se sentiu dirigindo uma produção do porte de Lope fora do Brasil? A responsabilidade, o peso da engrenagem comprometeram a liberdade de criação, o prazer nas filmagens?
As dificuldades também existiram em “Casa de Areia”, apesar de uma escala menor de produção. Com “Lope”, não tive medo, mas procurei me cercar de um time de parceiros: Ricardo Della Rosa na fotografia, Ulisses Malta na pré-produção, Jorge Saldanha no som, Sérgio Mekler na montagem. Apesar do porte da produção e dos problemas inevitáveis de qualquer filmagem, só senti prazer. Procurei fazer o filme como quem serve o exército: cumprindo a ordem do dia. Foram 14 meses de preparação do departamento de arte, cinco meses de preparação dos figurinos (100% das roupas dos figurantes foram feitas na China. assim como 50% das roupas dos protagonistas – as demais 50% foram cortadas e confeccionadas na Espanha). Tivemos 12 semanas de preparação das filmagens – ao todo nove semanas e meia, entre Espanha e Marrocos, onde encontramos locações mais fiéis aos cenários reais de “Lope” do que em seu próprio país. Eu estava tão envolvido, que apesar de ter um storyboard de todo o filme, não o levei para o set uma vez: ele estava todo na cabeça. Por incrível que pareça, quanto mais problemas pela frente, mais calmo eu fico. Se o set estiver muito calmo, aí sim fico nervoso. Eu adoro filmar e adoro montagem. A fase que me deixa mais angustiado é a da elaboração do roteiro.
Você não ficou preocupado com as eventuais críticas de um brasileiro dirigir um filme sobre um monstro sagrado espanhol, interpretado por um ator nascido na Argentina? Como o filme foi recebido?
Se eu pensar nesses termos não faço filme nenhum, não teria feito “Eu Tu Eles” ou “Casa de Areia”. Afinal, qual a minha ligação com aqueles temas, com aqueles personagens, com aqueles lugares? “Lope” foi motivado pela minha paixão pelo personagem, pela sua história. Para mim, este envolvimento é suficiente para qualquer diretor fazer o filme que desejar. Nesse sentido, os americanos foram inteligentíssimos: eles importam talento, não a nacionalidade. Como diretor e como autor, sou um contador de histórias, e não tenho vontade de me limitar ao meu quintal – nada contra quem queira se restringir a ele, mas o meu posicionamento é contar as histórias que me apaixonam. A próxima está apontando para a Ucrânia. Na Espanha, o filme teve 50% de ótimas críticas, 30% de críticas boas e 20% de críticas negativas, mas o filme está entre as três maiores bilheterias do ano no país, incluindo a de filmes estrangeiros.








































