Como Água traz Anderson Silva entre Bruce Lee e Rocky Balboa

Assim como a água se adapta em qualquer recipiente, os lutadores devem estar preparados para todo tipo de adversários e técnicas. A frase é dita pelo mestre das artes marciais Bruce Lee durante os primeiros segundos de “Anderson Silva: Como Água”, filme sobre o lutador e novo ídolo brasileiro. Ao mesclar golpes e técnicas de muay thai, jiu-jítsu, capoeira, judô e taekwondo, Silva tornou-se imbatível dentro do octógono do Ultimate Fighting Championship (UFC) e defende o cinturão dos pesos-médios há incríveis quatro anos.

É interessante notar, no entanto, que, assim como seu personagem, “Como Água” também é extremamente moldável e pode agradar tanto aos apreciadores de MMA (Artes Marciais Mistas, na sigla em inglês) quanto aos detratores desta polêmica modalidade. Isso porque o filme dirigido pelo americano estreante Pablo Croce é um documentário, mas pode ser assistido como se fosse uma ficção.

“Como Água” utiliza todos os elementos e recursos narrativos de uma história convencional, inclusive o famoso conceito da “Jornada do Herói”. Isso fica evidente nem tanto pela quantidade de roteiristas, quatro (entre eles, Ed Soares, empresário de Silva), mas pelo formato das imagens captadas. Croce não utiliza entrevistas convencionais – com pessoas sentadas dando depoimentos, como costuma ser adotado em documentários –, e usa a câmera como um personagem invisível dentro do ambiente, observando as conversas, conselhos e treinos, além das imagens de arquivo.

O longa tem como premissa registrar a preparação de Anderson Silva para o combate com o americano Chael Sonnen, realizado em 2010. A luta anterior do brasileiro, contra o conterrâneo Demian Maia, foi bastante criticada pelo presidente do UFC, Dana White. Enquanto White e o público pagante em Abu Dhabi queriam ver um espetáculo, com direito a nocaute, Silva administrou a vantagem, esquivou-se de golpes e venceu por pontos. Apesar de assegurar o cinturão, o “Spider” saiu vaiado.

O presidente do UFC tratou de convocar Sonnen para a próxima luta e o diretor não precisou fazer qualquer esforço para transformá-lo no vilão do filme. Falastrão, arrogante e prepotente, o americano é o típico representante do conservadorismo republicano, que critica o modo de vestir de Silva e se diz um exemplo para as crianças – mas não pensa duas vezes em fazer comentários xenofóbicos (e, mais tarde, é revelado que ele utilizava esteroides).

Paralelamente, Croce registra o brasileiro em família, sempre carinhoso e amigável, e nunca respondendo às ofensas do americano. “Como Água” ganha ares mais dramáticos primeiro ao registrar Silva fora de seu ambiente de conforto – para melhorar sua preparação, pela primeira vez ele vai treinar nos Estados Unidos –, e depois mostrando toda a pressão vinda de três frentes: de White, que ameaça expulsá-lo do UFC caso não colabore com a divulgação do evento; da polêmica alimentada por Sonnen; e dos excessivos treinamentos físicos e a saudade da mulher e dos filhos.

A cada entrevista, a construção do herói e do vilão se fortalece: Sonnen de cara fechada e agressivo, Silva amigável e risonho. O americano treinando sozinho, no salão branco e estéril da Nike; o brasileiro na escura e calorosa academia do amigo Minotauro. Não fica difícil, desta forma, torcer para Silva quando a luta finalmente começa, até porque o próprio combate em si já parece um filme, de tão dramático: Sonnen vencia os cinco rounds, mas o brasileiro encaixou um golpe nos últimos minutos e venceu. Ao citar uma fala de Rocky Balboa (“Ninguém bate mais forte do que a vida”), “Como Água” reafirma suas influências e propostas.

Os fãs do UFC e de Anderson Silva ganharam um filme com suspense, comédia e final feliz, e que humaniza um lutador de MMA – esporte sempre relacionado à barbárie. Por outro lado, “Como Água” também materializa argumentos de quem tem ojeriza pela modalidade, como a predominância do circo nos bastidores e do show de horror no octógono (vale lembrar, Dana White repudiou a tática de Silva de administrar a vitória). A cena final é emblemática: um esporte no qual o vencedor sai de ambulância.

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Anderson Silva: Como Água

Imagem de Amostra do You Tube
Like Water (EUA, 2012)

 ★★★½☆ 

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Leia também a entrevista:

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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