Na cena inicial de “Amor a Toda Prova”, a câmera dos diretores Glenn Ficarra e John Requa (“O Golpista do Ano”) passeia sob as mesas de um restaurante e flagra a intimidade dos casais presentes – alguns roçam os pés acanhados, outros partem para investidas mais ousadas. Quando a tomada se demora nos personagens de Steve Carell (série “The Office”) e Julianne Moore (“Minhas Mães e Meu Pai”), cada qual sentado em um extremo da mesa e com as pernas tensionadas na cadeira, não é preciso de muito mais para deduzir que ali está um casal em profunda estagnação – uma constatação que se escancara no instante seguinte, de maneira bem menos sutil, quando a mulher anuncia que quer o divórcio ao mesmo tempo em que o marido decide que pedirá crème brûlée para a sobremesa.
Esse ritmo preciso e certeiro vai nortear o restante da trama: “Amor a Toda Prova” promoverá, ao longo de quase duas horas de duração, todas as catarses a que tem direito; mas, ao mesmo tempo em que entrega o conteúdo mastigado e digerido ao espectador, não deixa de dizer um bocado também nas entrelinhas.
Um bocado mesmo, quando se considera que toda a divulgação do filme simplificava a sua proposta em uma comédia sobre dicas de paquera – oferecidas, no caso, pelo personagem de Ryan Gosling (“Namorados Para Sempre”), um mulherengo que se apieda de Carell ao encontrá-lo afogando as mágoas do divórcio no balcão de um bar. Aliás, encarado somente sob esse contexto, “Amor a Toda Prova” não perde a eficácia, mas deixa muito ainda a abstrair.
O amor do título – a única palavra preservada do original “Crazy Stupid Love” (Louco, Estúpido Amor, em tradução literal) – é o que motiva os encontros e desencontros que perpassam a trama.
No centro do filme está o casal formado por Carell e Moore, em fase inicial de separação porque ela pulou a cerca com um colega de trabalho (Kevin Bacon). Nas arestas, está o personagem de Gosling, um bon vivant que teve tudo de mãos beijadas e se especializou na arte da sedução – a sua lábia, porém, é desafiada pela relutância de uma das moças em que passa sua cantada, uma ruiva vivaz e questionadora (Emma Stone, de “A Mentira”).
Também ganha destaque o filho pré-adolescente de Carell e Moore, que, mesmo diante da ruptura do casamento dos pais, permanece convicto no poder do amor e disposto a provar à sua babysitter, quatro anos mais velha, que está apaixonado – sem saber que ela própria cultiva uma paixão inatingível.
A princípio, os enredos parecem desconexos, e a ligação entre eles, demasiadamente tangencial. Mas o roteiro reserva reviravoltas coerentes e deliciosas de acompanhar, que redimensionam o escopo das situações e as enveredam para caminhos inesperados.
É, contudo, o drama, e não o romance, que se mescla ao humor da narrativa para evocar o estado de espírito dos personagens. Mais do que a ligação afetiva entre eles, é o dilema interno de cada um que está em jogo.
Uma compreensão, é claro, que não passa despercebida ao elenco excepcionalmente talentoso – em especial a Steve Carell, que nunca esteve tão bem no cinema. Sua performance é um exemplo de economia e disciplina, tal como a sua habilidade de sintetizar nos olhos as emoções que atores menos cautelosos estampariam no rosto inteiro. De fato, não há entre as atuações um único gesto supérfluo – excetuando-se, talvez, o núcleo juvenil, que nem por um milagre estaria no mesmo nível de proficiência de Julianne Moore ou Kevin Bacon.
Mas isso também não é problema em “Amor a Toda Prova”, que, em seu cerne, trata justamente de amadurecimento.
O personagem de Carell, um pai de família consolidado, tem tanto a aprender quanto o filho. O divórcio o catapulta para uma vida noturna agitada, na qual ele se sente pouco à vontade e que o submete, além das contas caríssimas de alfaiate e bartender, à experiências vexatórias (como uma noite de sexo casual com uma alcoólatra em recuperação, vivida com desenvoltura por Marisa Tomei).
Custa a ele admitir que não foi a infidelidade da esposa que pôs fim ao casamento: há anos, a relação do casal empacara entre o amor e a amizade, num ponto em que as qualidades de uma pessoa já se tornaram tão corriqueiras para a outra que esta sequer tira um momento para apreciá-las.
Por sua vez, o personagem de Gosling, ainda que inserido no arco planíssimo do garanhão que se regenera, é humanizado pelo roteiro e pelo ator (talvez o mais proeminente de sua geração em Hollywood). Da caricatura inicial, que assessora a transformação de Carell sem motivos palpáveis ou compreensíveis, ele se molda no personagem mais inflexível às investidas do amor – não por cinismo, mas por uma questão de defensiva.
Trata-se de alguém que prefere migrar de um contato superficial ao outro para jamais ser reduzido a um estágio de desolação e sofrimento como o de Carell no início do filme. O que o personagem vem a assimilar – talvez irremediavelmente tarde – é que, ao se proteger dos contras de um relacionamento, ele também se resguarda dos prós, sintetizados na persona irresistível de Emma Stone.
E, finalmente, o garotinho apaixonado experimenta um sentimento que desconhece e que não sabe ministrar. O primeiro amor lhe provoca sonhos molhados e lhe inspira a fazer as declarações públicas mais inusitadas.
É o início de sua imersão em um território desconhecido, que vai bem além da infância pueril – e que “Amor a Toda Prova” encare essa transição não como uma perda, e sim como uma libertação, é mais uma confirmação de que o filme, afinal, não quer apenas extrair risadas fáceis. Quer, sim, incitar uma reflexão sobre os modelos de humanidade que apresenta, e sobre como um único sentimento é capaz de conectá-los.
Amor a Toda Prova
(Crazy, Stupid, Love, EUA, 2011)
Lançamento em DVD e Blu-ray







































