Alcatraz quer prender o público com mistérios

Desde o estouro de “Lost”, os canais norte-americanos tentam criar um novo fenômeno televisivo que conquiste público e crítica por meio de uma história cheia de mistérios. O candidato da vez é “Alcatraz”, que estreia no Brasil neste domingo (22/1), com exibição no canal pago Warner, apenas uma semana após seu lançamento nos EUA. E de fato a comparação entre as duas séries é inevitável, a começar pelo produtor, J. J. Abrams, responsável também por “Lost”.

Mas as semelhanças vão além: a história tem viagem no tempo, repete Jorge Garcia (o gordinho Hugo Reyes) como um dos protagonistas e também invoca uma ilha misteriosa – a antiga prisão americana que dá nome à série.

De forma inevitável, é o próprio Abrams quem faz questão de deixar claro que “Alcatraz” não deve ser chamada de “o novo Lost”. “Em termos de história, elas não poderiam ser mais diferentes”, comentou o diretor de “Super 8” durante a apresentação da série para a imprensa norte-americana.

Criada por Elizabeth Sarnoff, Bryan Wynbrandt e Steven Lilien, a história mostra que o motivo da desativação do presídio em 1963 foi bem diferente do alegado pelo governo dos Estados Unidos (altos custos na manutenção): todos os 302 detentos, além dos guardas que trabalhavam no local, desapareceram misteriosamente, sem deixar qualquer rastro.

A detetive da polícia de São Francisco Rebecca Madsen (Sarah Jones) descobre que essas pessoas estão reaparecendo em nosso presente, ao investigar um assassinato recente, cometido por um dos prisioneiros que esteve em Alcatraz e que havia sido dado como morto. Para tentar entender melhor o fenômeno, ela contará com a ajuda do escritor Diego Soto (Garcia), um especialista sobre a história do presídio. A dupla, no entanto, terá que lidar com o agente federal Emerson Hauser (Sam Neill), que também investiga o mistério.

O grande chamativo do programa são os segredos em torno da enigmática prisão criada na ilha. O local passou a frequentar o imaginário popular desde que foi criado, em 1934, e gerou diversos mitos e longas-metragens, como “Fuga de Alcatraz” (de 1979, com Clint Eastwood) e “A Rocha (de 1996, com Nicolas Cage). Porém, o assunto ainda era inédito na TV. “Como é que nunca houve uma série sobre Alcatraz?”, se perguntava Abrams durante a coletiva. “Assim que a ideia chegou a mim, fiquei desesperado para fazê-la acontecer”, disse o produtor, empolgado.

E a primeira observação que Abrams fez quando sua empresa Bad Robot adquiriu o programa foi impor aos roteiristas episódios com histórias fechadas. A exigência se deu por conta de um fato curioso: o produtor estava zapeando pela televisão um dia desses e começou a assistir a “Alias”, série que ele produziu. No entanto, como ele esteve afastado da produção por um período de tempo, Abrams ficou completamente confuso ao conferir um capítulo aleatório. E se alguém que trabalhou na série não entendia a história, ele imaginou como devia se sentir o expectador comum.

“‘Alcatraz’ foi concebida como uma série com histórias episódicas e uma mitologia abrangente, que iremos conhecer ao longo do tempo”, explicou o produtor.

A série trará, portanto, a fórmula “vilão da semana”, que não exige do espectador uma fidelidade extremamente pontual, mas também não afasta aquele que perdeu um ou outro capítulo. “Se você assisti-la ocasionalmente, não vai se decepcionar; se assisti-la consecutivamente, vai entender tranquilamente; e se você assisti-la aos poucos, será capaz de compreendê-la”, comentou Daniel Pyne, co-rodutor de “Alcatraz”.

Os atores também estão empolgados com a série, principalmente Sara, já que este é seu primeiro trabalho como protagonista, depois de participar de séries como “Amor Imenso” e “Sons of Anarchy”. Seu papel como a detetive novata Rebecca servirá como os olhos do público para o mistério de Alcatraz – um lugar que reserva segredos inclusive sobre seu passado, já que seu avô é um dos desaparecidos. “(A série) é sobre a sua jornada nessa nova fase de sua vida, que irá conectá-la ao passado que ela não conhecia antes. Seu mundo é virado de cabeça para baixo no piloto e ela precisará juntar as peças.”

Enquanto caça os piores criminosos que haviam sumido por meio século, Rebecca terá que se entender com o agente Emerson Hauser, que lidera uma força-tarefa especial dedicada exclusivamente a encontrar os desaparecidos. Eternizado pelo cinema no papel do simpático paleontólogo Dr. Alan Grant no clássico “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” (1993), Sam Neill interpreta agora alguém que não deve conquistar a simpatia do público.

“Hauser é letal, mau e perigoso de se conhecer”, resumiu o ator. Perguntado se ele seria uma espécie de vilão, Neill deixa a resposta no ar: “Depende de sua bússola moral”, brincou o ator.

Por outro lado, o expectador não deverá ter dificuldades em se relacionar com Diego Soto, personagem de Garcia. O veterano de “Lost” foi o primeiro contratado por Abrams para a nova série, mas o ator já deixa claro que o seu especialista em Alcatraz não será um novo Hurley – que costumava funcionar como alívio cômico.

“Acho que é normal encontrar humor em situações tensas, por isso há alguns aspectos que as pessoas vão achar engraçado. Mas eu não sei se vai ser no mesmo nível de ‘Lost’, onde havia uma cena muito intensa e em seguida aparecia o Hurley, para podemos relaxar um minuto”.

E como ele já trabalhou com Abrams e sua turma, Garcia afirmou não estar muito preocupado por ainda não receber muitas informações sobre seu personagem, nem sobre os rumos que a história pode tomar. “Já me acostumei a trabalhar desta maneira”, disse tranquilamente, depois de seis temporadas de segredos na ilha de “Lost”.

Não é o caso de Jones, que vem tentando decifrar os enigmas a cada roteiro que recebe. “Eu estou tentando desvendar os segredos e tenho minhas próprias teorias sobre o assunto, com um pouco das pistas que recebemos a cada episódio, mas tenho certeza de que não está certo”, lamentou a atriz, de forma humorada. “Tenho certeza de que vou passar bem longe do verdadeiro segredo.”

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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