Adriano Stuart (1944 – 2012)

Morreu aos 68 anos o ator e diretor Adriano Stuart, parceiro frequente do grupo humorístico “Os Trapalhões” nos anos 1980, tanto no cinema quanto na televisão. Seu trabalho derradeiro na direção foi com o longa-metragem “Fofão – A Nave Sem Rumo” (1988). Como ator, sua última aparição foi em “Encarnação do Demônio” (2008), do colega José Mojica Marins (Zé do Caixão).

Adriano Roberto Canales nasceu em Quatá (SP) no dia 19 de fevereiro de 1944, durante a passagem do circo de sua família pela cidade. Em pouco tempo adotou o sobrenome artístico de seu pai, Walter Stuart (1919 – 1999), e já brincava e trabalhava no picadeiro apresentando-se no Circo Oni em diversos municípios do interior do estado de São Paulo.

Em cena de O Sobrado

Seu avô vendeu o circo em 1950 e os familiares passaram a morar na capital. Na época, a televisão brasileira dava seus primeiros passos e os talentos artísticos da família foram contratados pela extinta TV Tupi. Enquanto o pai e o tio trabalhavam como diretores e produtores de programas, o jovem Adriano foi contratado como ator aos oito anos, para estrelar episódios de “TV de Vanguarda” (entre 1952 e 1957).

Era o início de uma carreira prolífica, que não se resumiu à TV: Adriano Stuart também foi contratado por programas de rádio e, aos 12 anos, fez sua estreia no cinema, em “O Sobrado” (1956), baseado em texto de Érico Veríssimo. Conforme entrou na adolescência e na idade adulta, manteve a regularidade do trabalho na TV e no cinema, atuando ao lado de Amácio Mazzaropi (1912 –1981) em “Meu Japão Brasileiro” (1965) e estrelando adaptações de obras literárias para a televisão, como “Os Miseráveis”, clássico de Victor Hugo, produzida em 1967.

Chão Bruto, com Regina Duarte

Enquanto atuava, Stuart ficava observando e adquirindo experiência, interessado na cadeira de diretor. Arriscou-se na função em 1972, comandando um episódio de “Shazan, Xerife & Cia.”, da Globo, e gostou do que encontrou. Nos próximos anos, também dirigiria programas para outros canais como Record e Bandeirantes, e trabalharia com artistas do calibre de Costinha e de Dercy Gonçalves.

Estreou como diretor de cinema em 1975 com “Kung Fu Contra as Bonecas”, cujo título deixa claro seu foco: fazer rir. No mesmo ano, ainda dirigiu “Bacalhau”, uma sátira de “Tubarão”, sucesso de Steven Spielberg que chegara aos cinemas meses antes. E se jogou na pornochanchada nas antologias “Cada um Dá o que Tem” (1975), da qual também participou o futuro novelista Sílvio de Abreu, e “Sabendo Usar, Não Vai Faltar” (1976). Em ambas, dirigiu e atuou.

Em cena de Cada um Dá o que Tem

Stuart, de fato, nunca abandonou a atuação e costumava ser chamado para estrelar algumas produções como “O Exorcismo Negro” (1974), de José Mojica Marins, “Chão Bruto” (1976), de Dionísio Azevedo, e “Festa” (1989), de Ugo Giorgetti.

Sua grande parceria, no entanto, foi com a turma dos “Trapalhões”, comandada por Renato Aragão. Stuart dirigiu alguns episódios do programa televisivo de humor politicamente incorreto e até arriscou algumas participações como ator na série. A química funcionou principalmente no cinema, onde dirigiu algumas aventuras de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias que se tornaram verdadeiros fenômenos de bilheterias.

Os Trapalhões na Guerra dos Planetas

Obras como “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (1978), “O Rei e os Trapalhões” (1979), “O Cinderelo Trapalhão” (1979), “Os Três Mosqueteiros Trapalhões” (1980) e “O Incrível Monstro Trapalhão” (1982) estão até hoje entre as maiores arrecadações do cinema brasileiro. “As Apatralhadas do Fofão” (1987) e “Fofão – A Nave Sem Rumo” (1988), dois filmes do personagem de Orival Pessini, foram seus últimos trabalhos como diretor.

A década de 1990 o levou a uma aposentadoria forçada da direção, com o fim do cinema popular brasileiro, e ele só foi resgatado em 1997 por Beto Brant, para trabalhar como ator no longa “Os Matadores”. No ano seguinte, voltou a ser dirigido por Giorgetti em “Boleiros – Era Uma Vez o Futebol…”, filme que gerou uma sequência, “Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos” (2006) – sua penúltima aparição nos cinemas.

Boleiros, com Flávio Migliaccio

Ele voltou a ser convidado por Brant para um papel em “Crime Delicado” (2005) e no ano seguinte despediu-se da televisão com um papel na minissérie “JK” (2006), da Globo. Em 2008, estrelou seu último trabalho, “A Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins.

Adriano Stuart foi encontrado morto em sua casa, em São Paulo, no domingo do dia 15 de abril de 2012, vítima parada cardiorrespiratória. Amigos próximos dizem que ele sofria de cirrose e fumava excessivamente. Ele tinha 68 anos e deixa dois filhos e dois netos.

A Encarnação do Demônio, com José Mojica Marins

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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