A divertida volta de James Van Der Beek

“Don’t Trust the B—- in Apartment 23” (algo como “Não Confie na P— do Apartamento 23”) virou “Apartment 23″ para estrear no Brasil nesta segunda, 6 de agosto, pelo canal pago Fox. Mas não importa como você a chame, trata-se de das novidades mais engraçadas da última temporada da TV americana.

A trama acompanha uma jovem bem intencionada (Dreama Walker, da série “Gossip Girl”), que acaba se mudando para Nova York em plena recessão econômica e acaba tendo que dividir um apartamento com uma verdadeira bitch, vivida por Krysten Ritter (série “Breaking Bad”). As duas são ótimas. Krysten, na verdade, é excepecional. Mas ambas ficam na sombra de um certo coadjuvente, que se supera ao demonstrar que rir de si mesmo é o melhor que existe para superar uma crise.

James Van Der Beek não teve a mesma sorte que seus colegas de “Dawson’s Creek”: Michelle Williams acumula três indicação ao Oscar, Joshua Jackson não se tornou exatamente um astro, mas protagoniza uma série cultuada (“Fringe”) e Katie Holmes… bem, Katie Holmes garantiu a vida com o divórcio de Tom Cruise e ainda participa ocasionalmente de algum blockbuster (“Batman Begins”). Já o próprio “Dawson” foi parar em alguns filmes para a TV e séries que não engrenaram (“Lances da Vida”, “Mercy”) e parecia fadado ao esquecimento.

Mas o ator pode ter encontrado a chance de dar a volta por cima ao interpretar… James Van Der Beek! A sitcom com o título politicamente incorreto “Don’t Trust the B—- in Apartment 23” (traz como atração Van Der Beek no papel dele mesmo numa versão exagerada. Na história, ele é uma ex-estrela mimada e narcisista, que aproveita sua fama em “Dawson’s Creek” para conseguir transas fáceis. “Eu percebi que contar uma piada depreciativa é muito mais engraçado do que uma que te engrandece”, comentou o ator, durante evento da Television Critics Association.

Ele está certo, afinal Matt LeBlanc ganhou recentemente o Globo de Ouro de Melhor Ator de Série de Comédia por “Episodes”, no qual interpreta justamente uma versão fictícia dele mesmo. Além disso, não tem como negar que Charlie Sheen alcançou o incrível salário de US$ 2 milhões por cada episódio de “Two and a Half Men” ironizando a própria vida repleta de sexo, drogas e mais sexo. Sem contar o sucesso do programa “Roast”, do canal humorístico Comedy Central, que convida uma celebridade para ouvir de outras celebridades uma série de piadas depreciativas sobre sua pessoa e carreira.

E o ex-protagonista de “Dawson’s Creek” parece apostar nesta estratégia com “Apartment 23”. Mas ele gosta de frisar que é apenas um personagem coadjuvante do programa. Na história, June (Dreama Walker) se muda para Nova York para conquistar seu sonho: crescer profissionalmente e morar num belo apartamento na maior cidade do mundo. As coisas saem um pouco diferentes do que a ingênua garota planejou e ela acaba indo morar no apartamento de Chloe (Krysten Ritter), a tal “p—-” do título. Chloe vai seduzir seu namorado e passar a mão em sua grana, mostrando para June que a vida na cidade grande exige manter os dois olhos bem abertos.

O Van Der Beek fictício é amigo da estrela da série, a jovem de caráter duvidoso que vive no Apartamento 23, o que já é, por si só, motivo de piada. No entanto, é difícil não considerá-lo a atração principal se o próprio criador da série, Nahnatchka Khan, também o faz: “É muito legal pegar alguém da vida real e transformá-lo num personagem exagerado”, comentou Khan. “James é uma estrela mundial e é divertido colocá-lo para fazer coisas normais, como ir a uma lavanderia.”

Khan escolheu o ator após assistir alguns dos vídeos da série online “Funny or Die”, em que Van Der Beek já fazia piadas sobre seu passado. O produtor viu que a coisa funcionava e que o ex-astro das adolescentes poderia substituir outro ídolo “aposentado”: a história foi originalmente pensada com Lance Bass, do grupo N’Sync interpretando a si mesmo, mas as negociações não foram para a frente.

Como sua carreira não vingou e os vídeos da internet fizeram relativo sucesso, Van Der Beek não se incomodou em satirizar a própria imagem e o personagem que o tirou do anonimato entre 1998 e 2003. “Não vi problemas em me divertir com ele uma vez que o dinheiro que ainda me restava acabou”, ironizou o ator sobre sua situação profissional. “E é muito mais divertido não se levar tão a sério.”

De fato, ele parece estar mesmo se divertindo, estendendo as piadas para fora das telas. Van Der Beek afirma, por exemplo, que precisou disputar o próprio papel com outros seis candidatos em uma audição: “Minha sorte é que quatro deles não eram atores e os outros dois não falavam inglês”, brincou.

Tamanha “exigência” tem justificativa: sua versão fictícia não vai se resumir a aparecer de vez em quando no apartamento 23, mas terá uma trama própria. Ele será um dos participantes de um programa de TV no estilo “Dancing With The Stars” (aquela baboseira da “Dança dos Famosos” do Faustão) – e terá como grande rival o ator Dean Cain (“Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman”), também interpretando a si mesmo. “As pessoas vão se impressionar ao ver o quão bem James dança”, provocou a morena Ritter.

O difícil é saber se ela falou sério ou se foi uma piada, afinal o próprio Van Der Beek não parece estar exatamente orgulhoso ou tranquilo com os prováveis momentos de vergonha alheia que a série pode provocar: “Quando eu chego em casa e encontro minha filha, digo ‘Me desculpe pelo que estou fazendo com o nome da família, querida’”, disse aos risos.

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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