A verdade inconveniente de FHC

Seguindo o exemplo do vice-Presidente americano Al Gore, que se utilizou da aposentadoria política para uma campanha de conscientização sobre o aquecimento global, transformada no documentário vencedor do Oscar “Uma Verdade Inconveniente” (2006), o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso embarca em sua própria cruzada, em um tema ainda mais espinhoso. Ele apresenta o documentário “Quebrando o Tabu”, que estreia nos cinemas brasileiros na sexta (03/06).

No filme, FHC propõe-se a discutir as políticas de repressão às drogas – mais especificamente, o uso indiscriminado da maconha por uma parcela significativa da população mundial, e os efeitos de sua possível legalização no cenário nacional.

Porém, ao contrário de Al Gore, que teve as palestras transformadas em filme, o político brasileiro não se envolveu com o projeto antes que o conceito tivesse sido firmado.

O diretor Fernando Grostein Andrade, que filmou a nudez de Caetano Veloso em “Coração Vagabundo” (2009), tinha a ideia na cabeça há 10 anos, desde que, em suas palavras, testemunhou o tráfico de drogas na Rocinha durante a gravação de um videoclipe. “Lá vi jovens no tráfico, segurando uma AK-47 e fiquei me perguntando: se na Holanda as pessoas vão comprar maconha legalmente num coffee shop, por que aqui elas seguram fuzis?”, ponderou, em entrevista após a exibição do documentário para a imprensa.

Ele percebeu, contudo, que precisaria respaldar seu raciocínio na opinião de líderes políticos e especialistas sobre o assunto. “Ficou claro que, pra esse filme dar certo, precisava de uma pessoa que tivesse credibilidade”.

FHC chamou a atenção do cineasta durante sua participação na Comissão Latinoamericana sobre as Drogas. O encontro foi facilitado pelo trânsito de seu padrasto, Andrea Calabi, que participou do governo do ex-presidente e hoje é Secretário da Fazenda de São Paulo.

Para Fernando Grostein Andrade, “a coragem política” de FHC foi encantadora. Todo o rascunho do documentário foi apresentado e, depois de vestida a camisa, veio a realização do filme, entre as viagens, as entrevistas infindáveis (cerca de 400 horas de material bruto) e o levantamento do orçamento de R$ 2,7 milhões, via Lei de Incentivo à Cultura – para fechar o patrocínio, ajudou também o apoio do meio-irmão do cineasta, o apresentador de TV Luciano Huck, que entrou no projeto como produtor.

O ex-presidente funciona como âncora do documentário. Mas não é só sua visão que prevalece. Personalidades como o ator mexicano Gael Garcia Bernal, o escritor Paulo Coelho e o médico-jornalista Dráuzio Varela, além de políticos americanos como os ex-presidentes George Bush (o pai), Jimmy Carter e Bill Clinton, dão seu parecer sobre o tema, em depoimentos exclusivos ou resgatados de arquivo.

Os EUA talvez sejam o país mais pertinente nessa discussão: a nação foi tomada como marco de excelência entre os demais países durante a maior parcela do século 20, e os efeitos da guerra contra as drogas, declarada por seus líderes na década de 1970, teve ecos internacionais, em meio a retóricas intervencionistas. Quarenta anos depois, a batalha nem sequer foi vencida no próprio território americano, onde as drogas continuam a ser um problema social e de polícia.

Havia, e ainda há, uma discussão acalorada sobre a penalidade que cabe ao usuário – se os especialistas defendem que qualquer vício deve ser encarado como doença, condenar um drogado seria, por consequência, negar assistência a alguém que necessita de ajuda. Inclusive porque dentro dos próprios presídios de segurança máxima a droga corre solta.

Em alguns países, como na vizinha Argentina, a posse das drogas para consumo pessoal não leva a indiciações. No Brasil, a maconha, mesmo tratada isoladamente, ainda é tabu, e os seus efeitos, que não são consenso nem mesmo entre a comunidade médica, são debatidos acaloradamente pelo cidadão comum.

O documentário aponta que, em locais como Holanda e Portugal, onde o consumo de certas drogas é tolerado, as doses de maconha só fazem diminuir. Mas alerta que exemplos de países europeus de território estreito e população mais nivelada, não necessariamente se aplicam à realidade brasileira, ampla e desigual.

“Cada país tem que buscar seu caminho. É isso que eu acho fundamental”, acredita FHC. Ao mesmo tempo, ele pondera que o caminho de Portugal pode ser um exemplo para o Brasil. Lá, não se condena os usuários da droga, mas a polícia continua a perseguir quem as comercializa. “Nós temos que tratar essa gente como doentes, pessoas que precisam de assistência médica, e não como criminosos”, avalia.

Para fazer essa declaração, ele visitou 18 cidades de 8 países diferentes, entre América Latina, EUA e Europa, e é essa peregrinação – na qual testemunhou a comercialização legal e ilegal de maconha – que dá forma a “Quebrando o Tabu”.

Hoje, FHC admite que nem sempre teve uma posição definida sobre o assunto. “Eu não tinha a consciência que tenho hoje e achava que a repressão era o caminho”, disse a respeito de sua ação à frente do governo. “Há limitações como presidente e existe o jogo da sociedade com o governo. Se ela não se convence, o governo não avança na conversa. Não posso dizer que, se fosse presidente hoje, faria e aconteceria, afinal não poderia prever minha relação com o Congresso e se valeria a pena politicamente”, explicou.

Não que, atualmente, ele se posicione como defensor ferrenho da legalização, mas a tolerância é certamente maior, e a necessidade de discussão, igualmente importante. “Este é um tema a ser levado para todas as famílias, pois é muito mais próximo a nós do que parece. A gente tem de sacudir a sociedade”, alardeou.

E as pessoas estão sacudindo. Após o tema do documentário chegar ao programa “Fantástico”, a maconha figurou entre os assuntos mais discutidos no microblog Twitter, entre os favoráveis à descriminalização e os inteiramente contrários a ela. Paralelamente, o Senador Eduardo Suplicy discursou no Congresso a necessidade de levar o tema para a pauta política.

“Creio ser chegado o momento de o Parlamento discutir o assunto, numa série de audiências públicas, com especialistas contrários e favoráveis à descriminalização, além de estudarmos os exemplos de outros países para, juntamente com toda a população brasileira, decidirmos o caminho que o Brasil deve adotar com relação à descriminalização”, disse Suplicy em discurso na segunda (30/5).

Esse debate, contudo, ainda encontra restrições penais, que na prática representa censura política sob a alegação de crime de apologia às drogas. A Marcha da Maconha, realizada nas ruas de São Paulo no último dia 21 de maio, terminou em caos e repressão policial.

“Numa sociedade democrática, você não pode impedir as pessoas de se manifestarem. Quem não concorda com a descriminalização tem de fornecer argumentos e entrar no debate”, defendeu FHC, em uma condenação clara à intervenção. “Mas não sou advogado e o governo cumpre ordens da Justiça”, emenda, politicamente.

Apesar do descompasso com a repressão policial do governo – do PSDB, seu partido – em São Paulo, FHC renega qualquer mal-estar político provocado pelo documentário, e chega a tecer elogios à lideranças petistas, que avançam no tema. Comenta, também, que ser ex-Presidente lhe deixa mais à vontade para abordar certos assuntos. E que o cinema é o veículo mais adequado para abrigar essa discussão.

De fato, o documentário nem precisou estrear para ser discutido aos quatro cantos do país.

+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

6 Comentários

  • 8 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Nossa voces nao entendem fhc viajou pelos paises de 1 mundo viu com são e agora quer
    que o brasil seje igual a um pais de 1 mundo se vocês preferem seguir a politica de que a policia vai acabar com a maconha vão quebrar a cara por que muitos fumam e como na internet somos anonimos todos adimentem que fumam enssinam a plantar falam sobre os bens que ela faiz etc legalize ja antes que o trafico ganha mais força ainda lembram to massacre no morro do alemao poderia ser evitado se os bandidos não tivessem ganhado milhoes vendendo maconha.

  • nivaldo duarte Identicon Icon nivaldo duarte
    2 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Caro Presidente;

    Passei noite adentro, pensando acerca de sua posição corajosa e ao mesmo tempo insensata, enquanto se pronunciou na frente das camaras de um progarama de televisão, que tem uma audiência considerável.

    Fiquei por alguns minutos a pensar nas pessoas que estavam com os seus aparelhos de televisão ligados para ouvir a sua fala. Dei por mim que, muitos jovens e crianças, na companhia de seus familiares, também estavam na sala de suas residências, a escutá-lo.

    Afinal! O entrevistado era alguém importante, sociólogo e ex. presidente de nossa Nação. E o fato, do Sr. ser um ex. presidente dá uma credibilidade maior. Tem peso a sua palavra, e a força de influência é evidente.

    Acredito! Meu Caro Presidente! Que o Sr. tem andado muito pela Europa a fora, é que isso sempre fora um comportamento habitual de vossa parte, chegando até mesmo a morar no exterior, onde tem uma quantidade expressiva de leitores, que lêem e apreciam as coisas que o Sr. escreve. E com a morte da Dona Rute, que reconheçamos; era uma mulher decente e que o mantinha, com mais equilibrio…

    Não que o ex. governante do Brasil, seja inconsequente. Na verdade, o Sr. é alguém de uma projeção maior, e que sempre gostou da companhia das elites, não teve um convívio com pessoas de classe menos favorecida.

    No entanto, compreendo que; as drogas. Não atingem apenas os filhos dos de baixa renda, ela está presente em todos os niveis… e todos acabam tornando-se vitimas da maldita.

    Meu Caro! O Sr. foi infeliz ao posiocionar-se favoravel a liberação da erva… e a sua fala deixou claro tudo isso. É como disse uma amigo meu: liberam a maconha, depois liberam o que ainda não foi liberado. Afinal! Liberar é mais fácil que encontrar uma solução para o problema.

    É como aquele pai que, prefere liberar o filho ou a filha para fazer o que bem entender, que ao contrário; educá-los… e dar-lhes uma condição devida, para viver uma vida decente.

    Qual o pai exemplar, que não fica indignado enquanto vê pessoas como o Sr, que deveriam ser porta-voz de verdades, que produzam resultados de efeitos, moral e saudável… ao contrário do que se ver por aí.

    Desculpa, meu Caro Presidente! É que eu não pude evitar de posicionar-me diante da repercussão que teve o seu pronunciamento, e embora eu seja, uma pessoa aberta e atual na minha maneira de pensar e agir. Vejo-me forçado pelas circunstâncias a discordar do Sr, a espera de uma pronunciamento que seja de melhor proveito para a população brasileira e principalmente para os nossos filhos.

    Um poeta decepcionado… no exércio de sua missão; sempre alerta ao que acontece no dia a dia.

  • João Identicon Icon João
    1 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Há um falso moralismo sobre o assunto, pois assim como o cigarro e o alcool, a maconha é muito consumido pela sociedade. Não defendo o livre comércio, mas sim a regulamentação do produto como em muito outros países .

  • antonio carlos Identicon Icon antonio carlos
    1 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Sou absolutamente contra a liberaç˜åo, principalmente nesse pais onde nao existe infraestrutura familiar, suporte do governo, educação, saude publica

  • Caio Identicon Icon Caio
    1 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Eu realmente gostaria de saber em quais cinemas vai passar. Já que muito provávelmente os cinemas grandes vão fugir da temática…

One Trackback

  • 4 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    [...] o documentário antes de falar algo, e abram a mente e deixem de ser hipócritas.O documentário expõe a guerra contra as drogas e como a sociedade foi afetada. O crescimento da violência e o fortalecimento das redes criminosas.Ele mostra de um modo brutal a [...]

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