A última dança de Bruce Beresford

A história do chinês Li Cunxin traz todos os ingredientes de um bom filme: drama, aventura, suspense, medo, romance, conflito político e superação. Mas a trama levada aos cinemas em “O Último Dançarino de Mao”, que finalmente entra em cartaz no Brasil, dois anos após ter ganhado o prêmio do público da Mostra de São Paulo, é bastante real.

Aos 11 anos, Cunxin foi realmente retirado de sua aldeia camponesa e levado à força com outros garotos para estudar balé em Pequim, durante a Revolução Cultural chinesa. Em 1979, após se destacar como grande dançarino, ganhou autorização para participar de um intercâmbio nos Estados Unidos e, lá, se apaixonou por uma americana e se encantou com a liberdade que nunca teve em seu país. Ao se recusar a retornar à China, Cunxin foi preso na embaixada e causou um impasse diplomático entre os dois países.

É o tipo de melodrama que parece ter sido escrito especificamente para o cinema, e o veterano cineasta Bruce Beresford (“Conduzindo Miss Daisy”) não teve dificuldades em transformá-lo num mar de lágrimas cenográficas. O difícil para o diretor foi acreditar que existia alguém capaz de interpretar o papel principal da história, adaptada do best-seller autobiográfico “Adeus China: O Último Bailarino de Mao” pelo roteirista Jan Sardi, indicado ao Oscar por “Shine – Brilhante” (1996).

“Eu li o livro, mas inicialmente rejeitei a ideia de filmá-lo porque pensei que nunca encontraria alguém para interpretar o papel principal. Seria preciso um jovem bailarino excepcional, bonito, que tivesse talento para atuar e soubesse falar fluentemente inglês e chinês. Existe alguém assim?”, se perguntava Beresford.

Quem solucionou o problema foi o próprio Li Cunxin ao indicar Chi Cao, um exímio bailarino chinês radicado há anos na Inglaterra. Os dois, de certa forma, têm uma trajetória muito semelhante, ao superar a repressão do regime comunista chinês por meio do balé, enfrentar as diferenças culturais no Ocidente e suportar o distanciamento da família. “Acho que por isso Li queria que eu o interpretasse, porque ele sabia que eu experimentei todas aquelas situações”, cogitou Cao, na divulgação do filme, durante o Festival de Toronto.

Os dois chineses, na verdade, compartilham detalhes de suas próprias histórias pessoais: o pai de Cao foi um dos mestres de dança de Cunxin em Pequim. “Provavelmente, eu fui da última geração que teve um treinamento similar ao de Li, no qual o professor tinha um pedaço de pau ou cinto na mão”, comentou o bailarino, convencendo qualquer um a desassociar a dança à delicadeza.

Beresford respirou mais tranquilo ao conhecer Chi Cao e ter certeza que tinha encontrado seu protagonista, ainda que o bailarino nunca tivesse interpretado um papel antes. Para resolver esse problema, o chinês passou por um curso intensivo de teatro, além de contar com as orientações do ator Bruce Greenwood, que no filme interpreta o diretor artístico do Houston Ballet, responsável por levar Li Cunxin aos Estados Unidos.

A ajuda, no entanto, foi mútua, já que os três meses de aulas de dança obviamente não foram suficientes para Greenwood desenvolver os movimentos corretamente, como um diretor experiente faria. “Às vezes eu dizia: ‘Sabe, no balé não fazemos assim. Você precisa fazer desta forma…’”, explicava Cao ao ator canadense.

“Eu não tinha a menor ideia do grau de disciplina necessária”, espantou-se Greenwood ao estudar a dança. “Eles trabalham mais duro do que qualquer um que eu já conheci. Eu não via ego ou qualquer reclamação. Era só suor, suor e suor.”

Até houve reclamações, mas por parte do governo chinês, que desconfiou que o roteiro tinha mensagens anticomunistas e tentou interferir na produção enquanto as filmagens aconteciam em solo asiático. “Quando chegamos lá, eles foram muito hostis, disseram que tínhamos de mudar o script. Eles não queriam qualquer referência ao presidente Mao (Tsé-Tung) e exigiram um final que mostrasse como a China tinha mudado”, revelou o diretor sobre os problemas nos bastidores.

Foi preciso muita diplomacia para garantir a continuidade das gravações, afinal “O Último Dançarino de Mao” não era um filme declaradamente político – ainda que sua mensagem subliminar seja mais que evidente. O diretor também se esforçou para que todos os personagens, fossem camponeses ou funcionários do governo comunista, tivessem uma representação autêntica e respeitosa. “Eu não queria transformá-los em estereótipos ou caricaturas políticas. Não é sobre isso que a história trata”, garante.

O resultado foi aprovado até pelo próprio Li Cunxin, que deu origem à história. “Confesso que estava um pouco inseguro, mesmo após ter assistido a algumas cenas, durante a montagem”, disse o ex-bailarino, que ficou aliviado depois de conferir o trabalho concluído. “É bastante fiel ao livro”.

Chi Cao também tirou um peso dos ombros ao descobrir que sua estreia como ator foi bem recebida. “Estou tão feliz que as pessoas me acharam convincente no filme, porque eu era o protagonista. Ver como as pessoas reagiram realmente foi um alívio”, comemorou o jovem bailarino, que ainda não se decidiu se voltará a trabalhar com cinema.

Já o diretor Bruce Beresford finalizou mais um filme desde o lançamento de “O Último Dançarino de Mao”. Com o título de “Paz, Amor e Muito Mais”, trata-se de uma comédia bastante elogiada pela crítica, em que Jane Fonda (“A Sogra”) interpreta uma velha hippie, mãe de um advogado conservador vivido por Jeffrey Dean Morgan (“Watchmen”). Também estão no elenco Elizabeth Olsen (“Martha Marcy May Marlene”), Chace Crawford (série “Gossip Girl”) e Catherine Keener (‘Percy Jackson e o Ladrão de Raios”). O filme não tem previsão de estreia no Brasil.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”. Escreve para alguns sites como o Pipoca Moderna e em seu blog: Cinesteta.blogspot.com

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