Premiado no Festival de Berlim, no Globo de Ouro e favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “A Separação” é um filme que pulveriza maniqueísmos.
A separação a que se refere o título é apenas o estopim de embaraços graves, o desencadeamento de uma sucessão de erros que serão motivo de angústia, sofrimento e violência. A forma como problematiza os lados opostos de sua contenda nos deixa perplexos diante da impossibilidade de tomar partido, de escolher um lado. A humanidade presente em erros e acertos de todos os personagens nos coloca diante da verdade, franca e imparcial, como deve ser.
Como em qualquer separação, há os dois lados. Mas nesta obra do diretor iraniano Asghar Farhadi (“Procurando Elly”), os dois lados vão além do casal cuja separação trata o título do filme. Isso porque há a filha de 11 anos, Termeh (Sarina Farhadi). Se ela é o eixo de um pêndulo no início, no final caberá a ela o fardo da escolha, a decisão que não quer ter que tomar. É quando sua verdadeira importância vem à tona, quando não resta dúvida de que parte de todo o drama da história está em torno dela e tem nela sua grande significância.
O filme abre com um casal diante do juiz. Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi), pais de Termeh, querem o divórcio. Mas o juiz nega-lhes a separação. Argumenta, segundo a lei iraniana, que os motivos não são suficientes e que não há comum acordo entre ambos para que se separem. Simin quer sair do país e quer que o marido e a filha vão com ela. Nader se recusa a ir porque tem de cuidar do pai, que sofre de Alzheimer. Ela então deixa a casa em que vivem e se muda para a casa dos pais. Termeh decide ficar com o pai, porque acredita que sua mãe vá regressar em breve.
É quando surge Razieh (Sareh Bayat) e sua filha de seis anos. Ela é contratada por Nader para cuidar de seu pai enquanto ele trabalha. Razieh é uma mulher religiosa, seguidora das determinações do Corão, livro sagrado do islamismo. Grávida de cinco meses e com o marido desempregado, aceita o trabalho. Porém, logo vê que cuidar de um idoso tão debilitado está além de suas forças. E há complicações com sua fé. Exemplo disso é quando ela liga para uma espécie de disque-dúvidas, para saber se é pecado, naquelas circunstâncias, limpar um homem de 80 anos que acaba de urinar na roupa.
Será uma série de desencontros, precipitações e julgamentos que acenderá a chama de uma contenda envolvendo Nader, Razieh e seu marido. Entre um mal explicado equívoco e um aborto, estarão questões de honra, verdade e o agravamento de problemas cotidianos. Acusações, agressões e juras de vingança transformarão em inferno a vida de todos os envolvidos. E na intensificação desse trama, o filme cria momentos de incessante aflição, quando seus personagens se veem em circunstâncias tão complicadas quanto constrangedoras.
O diretor trabalha a empatia do público alternando-a entre os dois lados da contenda. Faz perceber que os limites de certo e errado, de equívoco e justiça, são elásticos e afetam cada personagem de forma diferente, dando-lhe uma razão baça, indefinida dentro da natureza humana, de se exasperar e desesperar.
É impossível tomar partido. É impossível não se comover com todas as partes da contenda. São pessoas de vida difícil, pobres e classe média baixa, passando por momentos de tensão permanente, divididas entre o certo e errado, muitas vezes duvidando de sua própria razão.
Esse trabalho de explorar intensamente o equívoco humano, dando-lhe uma dimensão universal, passível de atingir qualquer um de nós, é um dos grandes feitos do filme.
“A Separação” é um drama que tem na sua estrutura o que de mais humanos temos em nós: a capacidade de errar. Não é filme sobre razão, mas sobre culpa, arrependimento e desamparo. Sentimentos que terminam por convergir para a menina Termeh, testemunha sofrida de toda trama, quase à margem do eixo narrativo, mas a quem caberá, na separação que é o estopim de todo drama, uma palavra final. A forma como somos levados a perceber isso demonstra o talento de seu diretor e a grandeza do filme.
A Separação
(Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011)





































