A nova paixão de Brian De Palma

VENEZA Na última vez que o cineasta Brian De Palma esteve no Festival de Veneza, ele saiu consagrado. Seu filme “Guerra sem Cortes” (2007), centrado no cotidiano dos soldados americanos no Iraque, lhe rendeu o prêmio de melhor diretor no festival. Em compensação, o filme foi execrado nos EUA, considerado pouco comercial no resto do mundo e ele ficou cinco anos sem filmar.

Sua volta ao festival também marca seu retorno aos thrillers hitchockianos que o consagraram nos anos 1980. Mas, desta vez, a crítica não se impressionou. Último filme exibido na mostra competitiva do Festival de Veneza, “Passion” foi avaliado com vaias em sua sessão de imprensa.

Com “Passion”, De Palma faz uma reciclagem de sua fase mais empolgante, quando pervertia Hitchcock em referências permeadas por erotismo soft, casos de “Vestida para Matar” (1980) e “Dublê de Corpo” (1980). O filme é, na verdade, remake do recente thriller francês “Crime de Amor” (2010), de Alain Corneau, e se passa entre as rivalidades do mundo corporativo.

Rachel McAdams (“Sherlock Holmes”) e Noomi Rapace (“Prometheus”) estrelam como antagonistas numa agência internacional de publicidade. Noomie é a funcionária que tem uma ideia genial e Rachel a gerente que a apresenta como sua, para impressionar a diretoria. O jogo de poder também envolve sedução e inevitavelmente acaba em crime. Mas o artificialismo em cena, com direito a máscaras fetichistas e personagens enlouquecidos, dificulta a capacidade de imersão em suas belas imagens. O filme parece muito forçado, quase um pastiche do cinema do diretor nos anos 1980.

De Palma defendeu o recuo estratégico ao gênero como uma opção estética e não existencial. “O cinema de suspense me dá oportunidade de contar minhas histórias de uma maneira muito mais visual. Fazia anos que não dirigia esse tipo de filme. Encontrei esse material e comecei a visualizar as imagens da história: uma aventura excitante”, explicou.

Ele explicou que foi o relacionamento das duas mulheres que o atraiu no filme francês original. “O relacionamento complexo e tórrido entre as duas mulheres construído por Corneau me agradou. É uma boa base para desenvolver uma história mais intrincada e misteriosa em relação ao original, no qual se descobre logo quem matou quem. No original, a tensão sexual era sugerida, enquanto no meu filme ela vai além disso”, ele comparou.

Presente na entrevista, Noomi Rapace comentou que as cenas íntimas entre ela e Rachel McAdams foram filmadas aos poucos. “Filmávamos diversos takes, uns mais sensuais, outros menos. E sempre conversamos muito com Brian, que trouxe ótimas ideias”.

O diretor confessou que não tinha a atriz em mente quando começou a escalar a produção. “No início, eu procurava uma atriz madura, parecida com a gerente do filme original (Kristin Scott Thomas). Mas Noomi Rapace me conquistou com o seu carisma. Rachel McAdams leu o roteiro e chegou com Noomi. Elas tinham se conhecido no set do último ‘Sherlock Holmes’ e desenvolveram uma relação forte, que usei no filme, aquele modo delas de jogar uma contra a outra, sexy e perigoso ao mesmo tempo”, contou.

Noomi não acredita que as duas personagens sejam lésbicas, apesar de se relacionarem sexualmente. “Acho que as personagens usam o sexo como arma, para conseguirem o que querem, o que torna a relação delas mais perigosa”, disse. “Para mim, esta personagem foi muito difícil porque sempre busco entendê-las e, neste caso, ela está mentalmente e emocionalmente perturbada”, completou a atriz, que se tornou conhecida por outro papel de sexualidade perigosa: a hacker bissexual Lisbeth Salander, na versão original de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2009).

Sobre a inevitável influência do mestre do suspense, o diretor brincou: “Hitchcock? Jura? Não. Não sei a quem se refere”, arrancando risos, mas também vaias desafinadas. Sobre o remake de seu primeiro filme de sucesso, “Carrie, a Estranha” (1976), que está sendo rodado pela diretora Kimberley Peirce (“Meninos Não Choram”), De Palma foi mais diplomático: “Kimberley é ótima diretora, vamos ver no que dá”, concluiu.

+ Cris Thomas

Chris Thomas é uma cinéfila brasileira em Paris, que canta e dança quando começam os festivais europeus.

1 Comentário

  • rui mollina Identicon Icon rui mollina
    4 de outubro de 2012 | Permalink | Responder

    Brian de Palma, sem sombras de dúvidas é o mestre na plástica visual, sua camera é impecável. Quer você goste ou não de seus filmes, mas que a qualidade visual é impecável o é. Um dos poucos a traduzir o suspense com qualidade visual o que o credencia como um dos grandes mestres do cinema. Um suspense etilizado com categoria. Grandes nomes da arte sempre foram mal interpretados pelos pseudo-criticos de plantão, que são seduzidos pelo padrão vigente do status quo e acabam falando bobagem de um dos maiores diretores da história do cinema.

    Assisti Passion e achei fantástico em todos sentidos, desde os enquadramentos de camera ao suspense erótico criado com muita categoria e classe que De Palma o fez. Assistam primeiro e depois dêem sua opinião, não se deixem levar pelos poderosos de Hollywood que não financiam mais o Mestre atual do suspense e, creio eu, fazem campanha negativa…

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