A Música Segundo Tom Jobim dispensa comentários

A música popular brasileira é muito rica e variada, sempre foi. Tem uma grande diversidade de expressões, enorme criatividade, e já gerou muitos movimentos ao longo de sua história. Entre esses movimentos, a bossa nova foi o que provocou as mudanças mais profundas e duradouras. Eternizou o violão e o canto de João Gilberto. Trouxe o poeta e diplomata Vinícius de Moraes para escrever maravilhosos poemas musicais. Gerou toda uma geração de músicos, compositores e intérpretes, que continuam ativos e brilhantes, e não serão esquecidos.

O ponto mais alto do legado desse movimento foi a vasta obra musical do compositor Antonio Carlos Jobim, o maestro soberano, como o chamou seu também parceiro Chico Buarque. Uma obra tão impressionante que extrapola não só a bossa nova, mas a própria música brasileira, popular ou mesmo erudita, e, em que pese sua grande brasilidade, se tornou universal.

Como dar conta de um legado tão precioso em sua vastidão, num único filme? O que será preciso dizer, explicar, sobre essa trajetória fantástica? O que ainda falta mostrar? O que é preciso: dividir em fases, temáticas, catalogar? Entrevistar quem? Alinhavar as entrevistas do próprio Tom, para que ele fale por si mesmo?

Se há algo que define Tom Jobim é sua música. E ela se basta. Não precisa de nada mais para ser entendida, emocionar. Foi isso que o nosso grande cineasta Nelson Pereira dos Santos (“Tenda dos Milagres”) captou, e acabou por produzir um filme notável, “A Música Segundo Tom Jobim”, em que a música é tudo, diz tudo, explica tudo. São quase 90 minutos de música sem nenhuma fala, nenhuma teorização ou depoimento, mesmo do próprio Tom. Nada quebra o encanto da música. E que música! É de tirar o fôlego.

Os intérpretes, que se sucedem um após o outro, sem identificação escrita ou legenda até o final, compõem um painel impressionante, onde a expressão musical reina absoluta. Lá estão resgatadas imagens e sons de Gal Costa, Elizeth Cardoso, Jean Sablon, Agostinho dos Santos, Pierre Barouh, Alaíde Costa, Henri Salvador, Gary Burton, Sílvia Telles, Gerry Mulligan, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Judy Garland, Vinícius de Moraes, Errol Garner, Pat Hervey, Márcia, Lio, Mina, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, Nara Leão, Maysa, Fernanda Takai, Nana Caimmy, Diana Krall, Oscar Peterson, Sarah Vaughan, Cybele e Cynara, Carlinhos Brown, Frank Sinatra, Jane Monheit, Stacey Kent, Birgite Brüel, Milton Nascimento, Lisa Ono, Paulo Jobim, Miúcha, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Paulinho da Viola.

Ainda faltou muita gente. Basta dizer que João Gilberto só aparece como capa do LP “Chega de Saudade” (1959), e ao violão, acompanhando discretamente Elizeth Cardoso naqueles primórdios que deram origem à bossa nova e ao histórico disco dela “Canção do Amor Demais” (1958). Problemas de cessão de direitos e projetos cinematográficos concorrentes. O crédito está lá, em todo caso.

Edu Lobo, tão próximo de Tom, e que com ele dividiu um disco espetacular, não apareceu. Nem Roberto Carlos ou seu show com Caetano, em 2008, em homenagem ao nosso grande maestro e compositor. Paciência. O que está lá vale muito a pena.

As gravações, todas de acervo, já existentes, garimpadas ou até descobertas ao acaso, são entremeadas por muitas fotos que jamais interrompem a música, só a complementam. E contam muito bem a história do Tom.

Há de se registrar a falta de músicas importantes de Tom Jobim, como “Passarim”, “Tereza da Praia”, “Lígia”, “Gabriela”, mas não se pode ter tudo em 90 minutos e, às vezes, a imagem não existe ou tem algum tipo de comprometimento.

O importante é que há informação nova até para quem conhece muito bem a obra do compositor. Quem já havia visto Judy Garland cantando “Insensatez”? Sammy Davis Jr. improvisando Tom? Ella Fitzgerald, cheia de suingue, num “Desafinado”? Diana Krall, cantando bem, embora com muito sotaque, em bom português? E que bom poder recuperar imagens de Sílvia Telles, Agostinho dos Santos, Maysa, Nara Leão, cantando lindas canções do Tom, e a famosa dupla que Elis Regina fez com ele em “Águas de Março”.

O documentário de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, neta de Tom, ao centrar toda sua força na música, concentrou uma energia muito grande no essencial e, com isso, arrebata o público.

Impossível ficar indiferente a uma obra tão grandiosa, insuperável. E esse efeito certamente será sentido em qualquer parte do mundo, fale-se o idioma que for. É um filme que pode dispensar legendagem – Nelson Pereira dos Santos aventou essa idéia. E pode mesmo. Até as letras em português, inglês, francês ou alemão, ganham universalidade com a música de Tom Jobim, do modo como ela é mostrada no filme.

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A Música Segundo Tom Jobim

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2012)

 ★★★★½ 

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Leia também a entrevista:

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+ Antonio Carlos Egypto

Psicólogo educacional e clínico,sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexo, Prazeres e Riscos, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Tem críticas publicadas habitualmente no Cinema com Recheio e nos sites GTPOS.org, Pipoca Moderna e na Confraria Lumière, um e-group que reúne críticos e cinéfilos. Associado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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