A grande família de Lima Duarte

O filme “Família Vende Tudo”, que chega aos cinemas na sexta (30/9), com o peso de cinco prêmios no Cine-PE e algumas críticas negativas, retrata a flexibilidade da ética brasileira. Os personagens têm moral condenável, mas são defendidos pelo elenco e diretor.

“Quis ir bastante fundo no retrato de um universo de dificuldades, para ao mesmo tempo tentar fazer o público se identificar com essas personagens e, de repente, falar: ‘Putz, mas o que é isso?! Onde fomos parar?’”, disse o cineasta Alain Fresnot (“Desmundo”) durante encontro com jornalistas.

A trama gira em torno de uma família que vende muambas para sobreviver, e monta um plano para que a filha (Marisol Ribeiro, de “Inversão”) dê o “golpe da barriga” em um cantor trash (Caco Ciocler, de “Olga”). Os pais – interpretados por Lima Duarte (“Assalto ao Banco Central”) e Vera Holtz (“O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili”) – são os principais incentivadores e arquitetos da tentativa da filha de tirar a família da lama. “Brasileiro é assim, faz de tudo para se virar”, generaliza a jovem Marisol.

A venda da moral da filha, no entanto, não é vista com a mesma simplicidade por Vera. A atriz disse que veio de uma família tradicional e conservadora, e não foi fácil entender a lógica de sua personagem. “Eu pensei ‘Meu Deus, que mãe é essa que fica alheia a qualquer moral? Que investe no futuro da filha de uma forma nada convencional?’”, relembrou durante a coletiva de imprensa.

Lima Duarte garante que essa realidade é mais comum do que as pessoas imaginam. “É uma família interessante, peculiar, uma família brasileira típica, hipertípica. Uma família que vende tudo, inclusive a própria moral”, definiu. “Adoro fazer papéis populares, gente do povo. Acredito que o personagem é bastante atual e profundo”, concluiu o ator.

Já o diretor prefere condenar a hipocrisia moralizante. “A principal denúncia da história é contra o falso moralismo e a incompreensão. Procurei passar um olhar terno sobre esses personagens, que são espelhos de uma situação de dificuldade”, disse o cineasta, que também assina o roteiro do longa.

A história foi inspirada no clássico da literatura modernista “Macunaíma”, escrito por Mário de Andrade e lançado em 1928. “Ela trafega entre um muro estreito do realismo de uma história possível e de uma liberdade cômica”, contou Fresnot, que também usou o cantor Latino como referência para o personagem de Caco Ciocler.

Caco Ciocler, conhecido por papéis mais sérios, chegou a ter encontros com o cantor, para pegar seus trejeitos. “Tive um contato natural com o Latino. Gravei até uma música dele no estúdio. Fui percebendo o modo como ele se mexia, a voz e a sensualidade na coreografia das músicas”, contou o ator, que fez musculação, bronzeamento artificial e aulas de canto e dança para fazer o filme. “Era um personagem improvável para mim. É diferente de tudo o que eu já fiz”, disse.

O elenco é inegavelmente de peso e conta ainda com Luana Piovani (“A Mulher Invisível”), Marisa Orth (“Os Normais – O Filme”), Ailton Graça (“Segurança Nacional”) e Beatriz Segall (a eterna Odete Roittman de “Vale Tudo”). Mas isso não foi suficiente para evitar uma nota zero de um crítico carioca.

Mesmo assim, o diretor se diz otimista pela acolhida do público. “É claro, você nunca é uma unanimidade. Se for para ficar entre ‘gostei’ ou ‘não gostei’, fico com a opinião da minha mãe, que, aliás, tinha péssima opinião a meu respeito”, se defendeu. “Mas, tendo uma boa recepção do público…”

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+ Leonardo Torres

Jornalista, blogueiro, cinéfilo e fã de música boa.

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