A demora para ver Elvis e Madona

Em 1998, o carioca Marcello Laffitte estava em Miami (EUA), onde exibiria num festival local de cinema o seu primeiro curta-metragem, “Vox Populi”. Descompromissadamente assistindo à TV, deparou-se com um programa de auditório exibido em algum canal hispânico. Na linha do mundo-cão de Ratinho, ele via o imbróglio envolvendo relacionamentos familiares. A confusão: um homem fugira de casa deixando o filho pequeno e se tornara travesti. Ao voltar para casa, 20 anos depois, encontrou o filho casado. Inesperadamente, o pai do rapaz se apaixonou pela nora – e foi correspondido.

“A partir daquele barraco, tive o ‘insight’ de criar uma história de amor invertido”, conta Laffitte.

Assim nasceu a comédia “Elvis e Madona” – cuja primeira grande apresentação pública se deu em janeiro de 2010, no encerramento da Mostra de Cinema de Tiradentes. Depois, o filme ainda passou pelos festivais de Gramado e do Rio, para só chegar aos cinemas agora, no final de 2011.

No filme, um travesti (interpretado por Igor Cotrim, ex-”A Fazenda”, na Rede Record) e uma lésbica entregadora de pizza (Simone Spoladore) se envolvem amorosamente, o que acarreta uma série de confusões envolvendo família, amigos e traficantes violentos. “O encontro da dupla acontece quando Elvis faz um delivery no apartamento de Madona e a vê toda machucada, após levar uma surra. Ali começa a amizade, que mais tarde evolui para um sentimento forte”, conta o cineasta. No meio do caminho, uma gravidez complica ainda mais a situação.

“Elvis e Madona” é contado num divertido tom de chanchada, rememorando grandes momentos das comédias cariocas dos anos 1980 e do desprendimento – especialmente sexual – de trabalhos da Boca do Lixo paulistana na mesma época. “Como dizia o escritor João Gilberto Noll, tudo que fazemos é autobiográfico, e nada vem do nada”, afirma Laffitte. “O filme reflete bastante o meu lado bem-humorado, ao brincar com as situações da vida sempre de uma maneira leve”.

Na tentativa de prezar esse bom humor, o diretor – nascido em Volta Redonda, no interior do Rio, há 47 anos – buscou retratar os personagens da forma mais “normal” possível, evitando estereótipos e situações clichê em relação às suas orientações sexuais.

“No cinema brasileiro de hoje, as bichas ou são marginalizadas e sofrem muito por conta de sua condição, ou são mostradas como o centro de piadas preconceituosas”, diz Laffitte, categórico. “Eu não quis repetir isso. Preferi mostrar meus personagens inseridos na sociedade. Madona paga o aluguel, Elvis quer trabalhar, todos têm seus sonhos particulares”.

Por tratar de uma temática potencialmente controversa, na chave da comédia e ainda contendo uma intensa cena de sexo entre os protagonistas (na qual o público parece confuso em entender, por exemplo, quem penetra quem, o que apenas enriquece um dos melhores momentos do filme), Laffitte teve dificuldades em dar vazão ao projeto. Foram mais de três anos tentando aprovar a produção em algum edital e, depois, conseguir patrocínio para filmar.

“Não abro mão das minhas ideologias e da minha autoralidade só porque estou fazendo um filme com o qual pretendo dialogar com o espectador”, frisa. Entre várias portas na cara, fechou um orçamento de R$ 1,5 milhão – dos quais R$ 1 milhão veio do Ministério da Cultura e os outros R$ 500 mil de patrocinadores e financiamento próprio.

O mesmo tipo de entrave foi sentido na hora de arranjar distribuidor. “Como vender um filme brasileiro sem grandes nomes no elenco e tematizando um romance gay? Ninguém queria”, lamenta Laffitte. Foi preciso uma pequena distribuidora, Pipa Filmes, interessar-se para “Elvis e Madona” enfim sair do armário.

Agora, o detalhe: “Não é um filme gay”. O diretor rechaça qualquer afirmativa de que tenha realizado um “filme gay”. “Se fosse isso, teria feito um trabalho totalmente voltado ao entretenimento do público homossexual ou à reflexão desses mesmos espectadores”, diz.

Ele dá de exemplo “Do Começo ao Fim”, de Aluízio Abranches, como um típico “filme gay”. “Ele foi feito pensando em agradar a quem está mais interessado em ver belos corpos masculinos se beijando na praia”.

Mesmo assim, a primeira opção do diretor para o elenco de “Elvis e Madona” era utilizar uma travesti de verdade num dos papéis principais. Não aconteceu porque, nas vésperas de se apresentar para as filmagens, o escolhido fez uma viagem de férias com o namorado.

Outra curiosidade: a escolha do nome do casal central não é apenas uma referência a dois grandes ícones do pop. Segundo Laffitte, Elvis é uma homenagem a uma amiga de infância chamada Elvira, que jocosamente recebeu o apelido. E Madona, com apenas um “n”, é por causa da cantora mesmo, “mas a gente preferiu escrever com um ‘n’ só, para evitar problemas jurídicos”, explica o diretor.

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+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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