A comédia de Até Que a Sorte Nos Separe é o próprio filme

Saber que o roteiro de “Até Que a Sorte Nos Separe” foi inspirado num livro de não-ficção esclarece muita coisa sobre esta bomba disfarçada de cinema. Criado a partir de conceitos do “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, de Gustavo Cerbasi, o roteiro de Paulo Cursino e Angélica Lopes tem menos profundidade até do que o próprio livro de auto-ajuda.

A história segue um casal que enriqueceu, veja só, ganhando na loteria, nos momentos finais de sua glória. Depois de anos esbanjado a enorme bolada, a fonte finalmente secou, e vamos assistir a intermináveis hora e meia de Leandro Hassum emulando todo e qualquer personagem histérico que ele já criou para a televisão, tentando esconder isso de uma Danielle Winits grávida e histericamente capitalista.

São momentos constrangedores e cada vez mais estapafúrdios, que envolvem desde uma paródia da famosa cena de “Maniac” em Flashdance, até momentos de redenção da mulher rica aceitando seu eu humilde. Não precisa somar dois mais dois para perceber que o público alvo de shopping centers vai adorar.

Como a trama principal obviamente não tem muito a dizer, o roteiro se espalha por um punhado de coadjuvantes desnecessários, focando especialmente em Kiko Mascarenhas e sua vida conjugal conturbada. É notável, inclusive, como Mascarenhas esteve muito melhor na pele de um traficante andrógino em “Totalmente Inocentes” do que aqui.

Apesar do páreo duríssimo, nem mesmo os patéticos “Totalmente Inocentes” e “O Diário de Tati” vão conseguir tirar de “Até Que a Sorte Nos Separe” o título de pior filme nacional de 2012, e o motivo é muito simples. Apesar de serem extremamente mal-realizados, existe nos dois primeiros um quê de auto-paródia, talvez por falta de coragem em se assumirem ruins.

“Até Que a Sorte Nos Separe”, no entanto, se vê como uma comédia capaz, um filme completo, e verdadeiramente munido de amplitude cinematográfica. Por isso, é realmente chocante ver falhas primárias de pós-produção, como cenas feitas em chroma-key falho, direção de fotografia inexistente e nenhum cuidado com o desenho de som.

O diretor Roberto Santucci, responsável pelo igualmente estúpido, sem graça, mal feito e extremamente bem-sucedido “De Pernas Pro Ar” (vale sempre lembrar, uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro recente), parece não ter a menor vergonha em dirigir filmes com o vigor que se conduz um episódio de “Zorra Total”.

Completa a comédia dentro da comédia o roteiro de Paulo Cursino, parceiro do diretor em “De Pernas pro Ar”, mas também escritor de “Zorra Total”, claro, apelando a todo instante para piadas homofóbicas, machistas e atuações histéricas. Neste último quesito, o mérito é devido à canastrice sem fim de Hassum.

No final das contas, é muito provável que, como todo produto “global” apoiado por mídia massiva, esse aqui faça estrondo nas bilheterias, assim como aconteceu com “De Pernas Pro Ar”.

E, como o público paga para ver de novo, “De Pernas Pro Ar” já tem continuação engatilhada para estrear em dezembro.

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Até Que a Sorte Nos Separe

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2012)

 ★☆☆☆☆ 

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Leia também a entrevista:

    Comédia brasileira tenta a sorte pra fazer rir

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+ Felipe André

Felipe André é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Pipocracia.

7 Comentários

  • andreza piresNo Gravatar
    24 de novembro de 2012 | Permalink |

    muito bom adorei eu rir muito

  • leonardoNo Gravatar
    15 de novembro de 2012 | Permalink |

    Olha eu vi o filme achei engraçado em alguns pontos, porém e ruim, claro, mas eu não acho ele o pior filme como vc disse, achei a critica um pouco exagerada.

  • Jonias Jr.
    30 de outubro de 2012 | Permalink |

    Como se faz um filme sem direção de fotografia? Deus meu! Quem gasta dinheiro para ver este filme?

  • ClarissaNo Gravatar
    17 de outubro de 2012 | Permalink |

    Olha, eu n me acho nem de LONGE entendida de cinema, mas tenho que concordar!
    Eu sou da parte da massa que pago pra ver filmes babacas sendo eles nacionais ou não.
    Tive “momentos de risadagem” em boa parte dos filmes que vc citou , mas esse filme realmente se superou.. Pense numa bosta! Ele é engraçado, é! Vc olha pro Hassun da vontade de rir já!
    Mas foi excepcionalmente mal produzido.. Isso não precisa ser expert pra notar..
    Parece que eles (do filme) querem nos dizer.
    “olha seus babacas, ta vendo esta merda aqui q vc pagou pra ver?! A gente vai fazer vc rir, p vc n se sentir um completo idiota por ter vindo” .. Juro que exatamente isso que pensei..

  • DanielaNo Gravatar
    8 de outubro de 2012 | Permalink |

    Meu Deus, nunca vi tanta merda escrita junta. TODOS dos cinema morreram de rir. Seu louco (a)!

    • Pipoca ModernaNo Gravatar
      8 de outubro de 2012 | Permalink |

      Oi Daniela, vc reparou que lamentar a crítica, dizendo que o público gostou, só confirma o que está escrito?

      • ThiagoNo Gravatar
        4 de novembro de 2012 | Permalink |

        Realmente, rs, sambou na cara da Daniela agora.