A comédia de Até Que a Sorte Nos Separe é o próprio filme

Publicado em: 08 out 2012 por Felipe André

Saber que o roteiro de “Até Que a Sorte Nos Separe” foi inspirado num livro de não-ficção esclarece muita coisa sobre esta bomba disfarçada de cinema. Criado a partir de conceitos do “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, de Gustavo Cerbasi, o roteiro de Paulo Cursino e Angélica Lopes tem menos profundidade até do que o próprio livro de auto-ajuda.

A história segue um casal que enriqueceu, veja só, ganhando na loteria, nos momentos finais de sua glória. Depois de anos esbanjado a enorme bolada, a fonte finalmente secou, e vamos assistir a intermináveis hora e meia de Leandro Hassum emulando todo e qualquer personagem histérico que ele já criou para a televisão, tentando esconder isso de uma Danielle Winits grávida e histericamente capitalista.

São momentos constrangedores e cada vez mais estapafúrdios, que envolvem desde uma paródia da famosa cena de “Maniac” em Flashdance, até momentos de redenção da mulher rica aceitando seu eu humilde. Não precisa somar dois mais dois para perceber que o público alvo de shopping centers vai adorar.

Como a trama principal obviamente não tem muito a dizer, o roteiro se espalha por um punhado de coadjuvantes desnecessários, focando especialmente em Kiko Mascarenhas e sua vida conjugal conturbada. É notável, inclusive, como Mascarenhas esteve muito melhor na pele de um traficante andrógino em “Totalmente Inocentes” do que aqui.

Apesar do páreo duríssimo, nem mesmo os patéticos “Totalmente Inocentes” e “O Diário de Tati” vão conseguir tirar de “Até Que a Sorte Nos Separe” o título de pior filme nacional de 2012, e o motivo é muito simples. Apesar de serem extremamente mal-realizados, existe nos dois primeiros um quê de auto-paródia, talvez por falta de coragem em se assumirem ruins.

“Até Que a Sorte Nos Separe”, no entanto, se vê como uma comédia capaz, um filme completo, e verdadeiramente munido de amplitude cinematográfica. Por isso, é realmente chocante ver falhas primárias de pós-produção, como cenas feitas em chroma-key falho, direção de fotografia inexistente e nenhum cuidado com o desenho de som.

O diretor Roberto Santucci, responsável pelo igualmente estúpido, sem graça, mal feito e extremamente bem-sucedido “De Pernas Pro Ar” (vale sempre lembrar, uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro recente), parece não ter a menor vergonha em dirigir filmes com o vigor que se conduz um episódio de “Zorra Total”.

Completa a comédia dentro da comédia o roteiro de Paulo Cursino, parceiro do diretor em “De Pernas pro Ar”, mas também escritor de “Zorra Total”, claro, apelando a todo instante para piadas homofóbicas, machistas e atuações histéricas. Neste último quesito, o mérito é devido à canastrice sem fim de Hassum.

No final das contas, é muito provável que, como todo produto “global” apoiado por mídia massiva, esse aqui faça estrondo nas bilheterias, assim como aconteceu com “De Pernas Pro Ar”.

E, como o público paga para ver de novo, “De Pernas Pro Ar” já tem continuação engatilhada para estrear em dezembro.

.

Até Que a Sorte Nos Separe

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=dAnzuTb-A8k[/youtube]
(Brasil, 2012)

 ★☆☆☆☆ 

.

Leia também a entrevista:

    Comédia brasileira tenta a sorte pra fazer rir

.

7 comentários em “A comédia de Até Que a Sorte Nos Separe é o próprio filme