A Boca do Lixo mostra sua face criminosa

RECIFE Três dias após uma falha técnica prejudicar o som de “À Beira do Caminho”, outro filme da competição de longas do Cine PE sofreu reveses. Na noite de domingo (29/4), “Boca” teve a sessão interrompida devido a uma troca indevida dos rolos da película. A sessão foi cancelada, com aviso do produtor: “Este não é o filme que fizemos, nos desculpem, precisamos parar”. “Boca”, com Daniel de Oliveira e Hermila Guedes, foi reprogramado para a tarde de terça.

Na segunda tentativa, deu tudo certo. O filme do paulista Flávio Frederico narra a trajetória ficcionalizada de Hiroito de Moraes Joanides (1936-1992), considerado o rei do crime e da prostituição na Boca do Lixo na São Paulo do final dos anos 1950 ao começo dos 60. O nome do bandido foi homenagem de seu pai pela admiração ao imperador japonês. Parecia, portanto, desde o nascimento, que Hiroito estava destinado a comandar.

Na tela, o personagem é interpretado pelo mineiro Daniel de Oliveira, numa caracterização impressionante, ainda que entremeada por tiques passíveis de serem taxados de afetados. A pernambucana Hermila Guedes faz a prostituta que se torna esposa do bandido.

O roteiro de Flávio Frederico e Mariana Pamplona adapta um livro escrito pelo próprio Hiroito sobre suas memórias como o criminoso mais temido da região decadente de São Paulo – também lembrada por se tornar um polo de produção de cinema popular nos anos 1970 e, até recentemente, o centro da cracolândia na cidade.

Inicialmente, Mariana Pamplona não estava satisfeita com o argumento que escrevera a partir da leitura dos escritos de Hiroito. “O roteiro se tornou um resumo do livro, o que era horrível. Só consegui fazer alguma coisa satisfatória quando desencanei e recriei toda a história”, contou a roteirista, em conversa num hotel de Recife. Uma de suas decisões mais acertadas foi “despsicologizar” o protagonista. “No livro, Hiroito tenta justificar moral e sociologicamente vários de seus crimes. A gente quis algo mais seco”, diz a roteirista.

Apesar de competir ao troféu Calunga no Cine PE, “Boca” já tinha sido exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo em 2010. Na época, o título era “Boca do Lixo”, e o filme tinha pequenas diferenças em relação à atual versão.

Dois anos se passaram sem que a equipe de Flávio Frederico tenha conseguido fechar distribuição para o longa. Somando entraves de negociações de trilha sonora, o filme ficou guardado (no Brasil, pois Flavio conseguiu vender “Boca” a vários países da Europa). Só agora retorna à exposição – e enfim com um contrato para ser lançado em circuito no segundo semestre pela Nossa Distribuidora.

“É um filme de época. Ele não vai ficar velho”, brincou o cineasta.

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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