Crítica: Severina é uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente

 

Impressionante como as histórias de amor não se esgotam e se reinventam, passados tantos séculos. No caso de “Severina”, retorno de Felipe Hirsch (“Insolação”) à direção de cinema depois de um relativamente longo hiato, temos a história de amor de uma livreiro e uma ladra de livros em uma cidade do Uruguai. Ele (Javier Drolas, de “Medianeras”), cujo nome nunca é citado ao longo da narrativa, talvez tenha deixado aquela moça bonita roubar os livros por ela ser bonita. Na terceira vez, no entanto, ele não deixa passar. Até porque ele também tem interesse em conversar e saber quem é aquela jovem mulher, vivida por Clara Quevedo (da série “O Hipnotizador”).

Ela afirma se chamar Ana, mas nunca sabemos se é esse mesmo seu verdadeiro nome. Um dos fortes atrativos da moça está no seu mistério. É pelo mistério que o livreiro se vê cada vez mais enredado em seus quereres, até virar uma obsessão capaz de levá-lo a fazer algo inimaginável. O amor está associado fortemente ao perdão nesta espécie de fábula que tem o sabor de um ótimo livro, desses que a gente faz questão de fazer anotações, marcar os trechos mais interessantes. Há diversos momentos no filme que inspiram vontade de dar uma pausa para fazer anotações, guardar certos diálogos ou mesmo citações. “Severina”, inclusive, já começa com uma inquietante epígrafe de Williams Carlos Williams.

O prazer da palavra também está presente no uso do recurso da voice-over, acentuando o sentimento de melancolia do narrador. A narração é bem-vinda, até por trazer ideias muito boas reforçar o delírio amoroso – como quando o narrador diz que a vida é formada por coisas reais, coisas simples e coisas fantasmas. As coisas reais seriam aquelas de grande valor e pouco frequentes na vida da pessoa, as coisas simples são as situações rotineiras e as coisas fantasmas seriam aquelas terríveis, como a febre, dores e decepções terríveis.

A divisão da narrativa por capítulos também se constitui em mais um namoro do cinema com a literatura, que pela própria história já seria óbvio. Os nomes dos capítulos ainda fornecem um misto de suspense e humor que traz não só um ar de espirituosidade à obra, mas também um sentimento de surrealidade, à medida que os gestos de amor do livreiro por Ana vão se intensificando. E intensificam também o nosso interesse e respeito por “Severina”, uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.