Crítica: Jogador Nº 1 é o maior “ovo de Páscoa” do mundo

 

Easter Egg, em tradução literal, é o famoso “ovo de Páscoa”. Usado no vocabulário nerd, o termo passou a significar aquela referência meio oculta, uma piscadinha para o fã dentro de filmes, livros e histórias em quadrinhos. Algo que é preciso procurar com cuidado para encontrar, tal qual as buscas por ovos de páscoa escondidos que as crianças fazem. Mas numa época em que o ovo de chocolate já não é suficiente em si mesmo, precisando oferecer os brindes mais diversos e sofisticados para consumo, “Jogador Nº1” vem para suprir a gula de um público ávido por referências sem que ele precise se esforçar para se se sentir recompensado.

Assim como no livro de mesmo nome escrito por Ernest Cline, o filme inverte as coisas e coloca em primeiro plano aquilo que era divertido encontrar exatamente por estar escondido. Neste sentido, as referências são muito mais uma matrioska do que um ovo: são informações dentro de informações, dentro de informações. E tudo muito fácil e muito rápido para dar a sensação boa de saciamento imediato. “Jogador Nº 1” é, para o bem ou para o mal, o reflexo do que se tornou a cultura pop contemporânea. E por isso mesmo pode ser divertido pra caramba – e completamente alienado.

Cheia de nostalgia por filmes, videogames e quadrinhos, a fábula distópica que imagina um mundo em que as pessoas vivem em um universo virtual chamado Oasis acompanha Wade Watts (Tye Sheridan) em sua busca pelos easter eggs deixados neste mundo de fantasia por seu inventor, James Halliday (Mark Rylance). É uma caça ao tesouro de escala épica em que quem encontrar o “ovo” herdará a maior fortuna que existe. Nesta mistura de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” com “O Código da Vinci”, “Jogador Nº 1” abraça sem medo a explosão visual pop, debulhando informações no ritmo de uma leitura dinâmica.

Se em “The Post” Steven Spielberg reverenciava seus colegas dos anos 1970, aqui ele mira não apenas em si mesmo, mas também em diretores contemporâneos que por sua vez foram influenciados por ele mesmo, de Peter Jackson a (pasme) Michael Bay. Há uma energia impressionante nas cenas de ação, dosada por uma abordagem ingênua das situações, resultando em uma aventura que não se pretende ser nada mais do que aparenta. A discussão social sobre a sociedade distópica fora do Oasis, que já não era muito aprofundada no livro, é praticamente anulada no filme, que assume para si a carapuça de fuga alienante da realidade assim como o universo virtual que retrata.

As mudanças em relação ao livro são bem-vindas, priorizando aquilo que ficaria melhor na linguagem audiovisual. E a trilha sonora de Alan Silvestri funciona muito bem em parceria com clássicos pop que fazem abrir um sorriso aos primeiros acordes.

Já o mundo do Oasis no filme é a melhor experiência digital de imersão no cinema desde “Avatar”. As contrapartes virtuais dos personagens convencem totalmente, com uma dinâmica do grupo dos protagonistas que, apesar de apressada, é cativante.

O filme segue a estrutura simples de sucessos de Hollywood da década de 1980 para oferecer uma mise-en-scene de timeline de redes sociais, repleta de dados variados jogados uns sobres os outros. E se exagera na narração e nos diálogos pra lá de expositivos, o filme compensa na forma fluída com que nos leva para acompanhar as fases da jornada de seu protagonista.

É uma aventura ágil e divertida que apresenta uma realidade em que tudo é um jogo e todo mundo acha que merece ser premiado. Wade não é um “escolhido”, é apenas um jovem com milhares de horas conectado. Seus amigos e sua rebelião não se organizam por aprofundamento ideológico, mas simplesmente por uma afinidade nos laços da bolha virtual. O universo que habitam é da hiperatividade e do consumo desenfreado de informações rasas. Tudo narrado com bastante redundância.

“Jogador Nº 1″ é o “Matrix” da geração Youtube.

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