Crítica: Ao abordar crimes, Cartas Para um Ladrão de Livros revela valores culturais

 

O cidadão Laéssio Rodrigues de Oliveira, considerado o principal ladrão de obras raras no Brasil, é o foco do documentário “Cartas Para um Ladrão de Livros”, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros.

Os feitos desse ladrão, que começou roubando revistas antigas com Carmen Miranda na capa e objetos relacionados à antiga cantora, a quem ele adorava, chegaram a atingir dimensões impressionantes. Ele praticou furtos em bibliotecas públicas de, pelo menos, cinco estados brasileiros, incluindo fotos da corte brasileira, mapas antigos feitos a mão, gravuras de artistas europeus icônicos, como Rugendas, e todo tipo de livro valioso e raro, ou de partes extraídas deles.

Antes de mais nada, isso revela que o então estudante de biblioteconomia Laéssio era um cara bem informado, culto, que sabia o valor das coisas e também encontrou um meio de vendê-las a pessoas muito ricas que topavam pagar fortunas por esses roubos. Certamente, sabendo que seriam produto de roubo tais preciosidades.

Como sempre acontece no nosso país, o ladrão está preso e já havia cumprido dez anos de detenção, anteriormente. Os muito ricos são desconhecidos e usam de seus poderes para permanecerem à sombra, sem qualquer consequência. Alguns, que teriam sido citados em depoimentos, utilizaram seus meios de pressão para que permanecessem desconhecidos e não pudessem ser investigados. Muito menos, punidos.

Para além da audácia do ladrão sofisticado e de seu público comprador, há a questão da preservação da memória e do patrimônio nacional. É inacreditável a facilidade com que ele atuou nas bibliotecas e museus, sem que ninguém se desse conta do que estava acontecendo, sem registros filmados, sem controle de acervo periódico. Só quando, finalmente, ele foi indiciado e condenado é que alguns logradouros culturais se deram conta do desaparecimento das obras, ou de parte delas. Inacreditável!

O filme foca nos depoimentos de Laéssio, de quem com ele conviveu ou foi furtado por ele, além dos agentes públicos e policiais que o investigaram. Destaca, também, a correspondência do ladrão com os diretores do filme, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, durante períodos em que ele esteve preso. E, ainda, as cartas que ele trocou com um rapaz, seu amante, que acabou sendo também envolvido na questão dos roubos.

“Cartas Para um Ladrão de Livros” ajuda a refletir sobre diversas questões ligadas à educação e cultura, valores e flagrantes desigualdades, a partir da figura retratada no documentário. Entre as pérolas de Laéssio, está algo assim: Não sei o que é melhor, estar livre pobre ou estar preso rico.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio