Crítica: A Livraria oferece uma fábula para amantes de cultura

 

“A Livraria” é um filme espanhol, dirigido pela cineasta catalã Isabel Coixet (“A Vida Secreta das Palavras”). Mas a verdade é que não poderia ser mais inglês. A trama é uma adaptação do romance homônimo, de Penelope Fitzgerald, e se passa na pequena cidade litorânea inglesa de Hardborough, em 1959. O filme nos transporta ao pequeno mundo daquela localidade, com seus hábitos, costumes, valores provincianos, vestimentas e modo de falar e se comportar com precisão, direção de arte impecável, ótima reconstituição de época. É um charme só. Pelo menos, na aparência.

Na realidade, a tal localidade é marcada por um conformismo, uma acomodação e um conservadorismo nada charmosos. Vigoram por lá a ignorância, a inveja e a falsa moral. Que é o que a personagem Florence Green (Emily Mortimer) vai sentir na pele, quando resolve encarar o seu grande sonho de montar uma livraria numa casa muito antiga da família, que lhe restou como herança.

Com espírito empreendedor, misturado a uma tenacidade e a uma alma sonhadora, Florence, contra tudo e contra todas as previsões, terá sucesso nessa empreitada maluca. Aí terá de lidar com a hostilidade da mediocridade, a inveja dos acomodados e a sordidez humana que se escondem debaixo das aparências charmosas. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento, já diz o ditado. O pior é que tudo se dá com base em argumentos ridículos e mesquinhos, mas em defesa da arte. E das verdades inventadas pela fofoca e pela maldade que ela distila.

A diretora Isabel Coixet conta que se identificou muito com a personagem Florence do romance, com seu espírito livre, capaz de transformações. De fato, ela levanta a poeira daquela comunidade sonolenta, que se transfigura em hostilidade. Mas também encontra quem já amava a boa literatura, escondido no seu canto, o sr. Brundisk (Bill Nighy), a menina que a ajudará com dedicação e os que descobrem a maravilha da leitura, com trabalhos provocantes, como o de Vladimir Nabokov, em “Lolita”, ou Ray Bradbury, em “Fahrenheit 451”. E ela segue em frente, seguirá sempre, em busca de seus sonhos, suas utopias, que podem se resumir a ideias ingênuas e bem intencionadas. Mas que incomodam da mesma maneira os de alma pequena, onde nada vale a pena, invertendo Fernando Pessoa.

A narrativa de “A Livraria” não resiste ao realismo, é fabular. Florence é uma espécie de fada que encontra sua alma gêmea e combate a bruxa: a sra. Gamart (Patricia Clarkson), que personifica a mediocridade maldosa da comunidade. O bem pode estar nos livros e o mal, na inveja e na burocracia, por exemplo. É um bom modo de apontar para a hipocrisia do mundo. Potencializada pelos pequenos e encantadores povoados ingleses, que se materializam no trabalho cinematográfico de uma cineasta talentosa de Barcelona, que venceu o prêmio Goya de Melhor Filme (o Oscar espanhol) com “A Livraria”.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio