Jogos Mortais: Jigsaw é a maior estreia em semana de horror nos cinemas

 

A volta da franquia de torturas “Jogos Mortais” é a maior estreia desta semana, marcada pelo horror nos cinemas. São quatro lançamentos do gênero, inclusive um brasileiro e outro que tenta vaga no Oscar 2018, entre as 14 novidades da programação. A maioria dos filmes da lista são produções nacionais e todos os trailers podem ser assistidos com cliques nos títulos dos filmes abaixo.

Dirigido pelos irmãos gêmeos Michael e Peter Spierig (da elogiada sci-fi “O Predestinado”), “Jogos Mortais: Jigsaw” gira em torno de uma nova série de assassinatos brutais, com os mesmos requintes de tortura e sadismo associados ao serial killer John Kramer. Só que o homem conhecido como Jigsaw está morto há mais de uma década, como os fãs da franquia puderam testemunhar. A investigação sobre a identidade do assassino conduz a trama, que é basicamente a mesma de sempre. Tanto que, para a crítica americana, Jigsaw deveria ter ficado enterrado. As avaliações foram negativas, com 34% no Rotten Tomatoes. A classificação etária é para maiores de 18 anos.

O grande circuito também destaca o suspense “Assassinato no Expresso do Oriente”, nova adaptação do famoso mistério de Agatha Christie sobre um assassinato cometido a bordo de um trem. Graças à conveniência literária/cinematográfica, também viaja neste mesmo trem aquele que se apresenta como “o maior detetive do mundo”, Hercule Poirot, que se propõe a responder à pergunta básica dos enredos do gênero: “quem matou”. E quem leu o livro original, publicado em 1934, ou viu a adaptação clássica de 1974, sabe que a resposta é a mais absurda dentre todos os textos da escritora.

O detetive belga é vivido por Kenneth Branagh (“Operação Sombra: Jack Ryan”), que se divide em cena, atuando também atrás das câmeras como diretor do longa-metragem. E a impressionante lista de suspeitos inclui Johnny Depp (“Piratas do Caribe”), Michelle Pfeiffer (“Sombras da Noite”), Daisy Ridley (“Star Wars: O Despertar da Força”), Willem Dafoe (“Meu Amigo Hindu”), Penelope Cruz (“O Conselheiro do Crime”), Judi Dench (“007 – Operação Skyfall”), Josh Gad (“A Bela e a Fera”), Derek Jacobi (“Cinderela”), Olivia Colman (série “Broadchurch”) e Lucy Boynton (“Sing Street”). Entretanto, apesar deste elenco, o melhor do filme é a parte técnica, especialmente a direção de arte, que rendeu 58% de aprovação no Rotten Tomatoes – contra 91% da versão de 1974.

Para o público infantil, a animação “A Estrela de Belém” mostra como animais falantes ajudaram José e Maria a dar a luz ao Natal. Na verdade, o desenho conta a velha história do nascimento de Jesus, com judeus malvados no encalço de José e Maria, os Reis Magos e a estrela D’alva – que é referenciada no título. Só que esta versão é narrada pelos bichos do presépio, que vivem inúmeras presepadas ignoradas pelo Novo Testamento. Com baixo orçamento, os bichos falantes chegam a lembrar personagens de outras produções, numa animação de aparência tosca, considerada medíocre com 51% no Rotten Tomatoes.

O maior lançamento nacional é “Os Parças”, o besteirol da semana. Repleto de referências antigas – Fábio Júnior, É o Tchan – , que ajudam a definir seu humor como datado, é basicamente um quadro do programa “Zorra Total” antes da reformulação, em que um grupo de comediantes careteiros e cheios de frases de efeito (que funcionam como bordões) tenta dar golpes em festas de casamento, conseguindo se mostrar mais incompetente que “Os Penetras”. Os “parças” do título são vividos pelo youtuber Whindersson Nunes (“Os Penetras 2”), Bruno de Luca (“Copa de Elite”), Tirullipa (filho de Tiririca) e Tom Cavalcante (do “Zorra Total”) em sua estreia no cinema. Estes trapalhões dão saudades dos Trapalhões, ao estrelarem a pior comédia do ano.

Já o pior estrangeiro da semana é “Screamers”, um terror no estilo “found footage” (vídeos encontrados), que junta site de compartilhamento de vídeos, lenda urbana e gravações amadoras – e nem sequer foi lançado em seu próprio país, os Estados Unidos.

“Patti Cake$” abre a parte boa da programação, com 82% de aprovação. A história da rapper aspirante Patricia Dombrowski, aka Patti Cake$, em sua busca inglória por reconhecimento na periferia de Nova Jersey, é um dos filmes que mais chamou atenção na cena independente americana em 2017, combinando história de superação, comédia e música. Lançado no Festival de Sundance, passou por Cannes, foi premiado em Seattle e está indicado ao Spirit Awards. A intérprete da personagem-título, Danielle Macdonald, é uma das revelações do ano.

Coprodução da Polônia e do Reino Unido, “Com Amor, Van Gogh” é uma animação para adultos e um trabalho de beleza rara. Com direção da pintora e cineasta polonesa Dorota Kobiela (“The Flying Machine”) e do britânico Hugh Welchman (que venceu o Oscar em 2008 pelo curta animado “Pedro e o Lobo”), o filme tem cada um de seus frames pintados manualmente como se fossem quadros.

Trata-se do primeiro desenho animado inteiramente pintado a mão, usando a técnica de pintura a óleo. Isto demandou o envolvimento de uma equipe com mais de cem pintores, que trabalham arduamente no projeto desde 2012. Todo esse esforço também tem função de metalinguagem, ao ser utilizado para contar a história do pintor holandês Vincent Van Gogh, utilizando suas próprias pinturas como cenários e personagens – numa cinebiografia completamente inusual. 81% no Rotten Tomatoes.

Estreia com maior cotação da semana, “Thelma” conquistou 89% de aprovação no “tomatômetro”. Terror norueguês de temática lésbica, dirigido por Joaquim Trier com ecos de “Carrie, a Estranha” (1976), o filme mostra uma menina reprimida (Eili Harboe, de “A Onda”) que começa a manifestar poderes psíquicos destrutivos de forma inconsciente, ao sentir atração por uma colega de aula (a cantora Kaya Wilkins, mais conhecida pelo nome artístico de Okay Kaya). O clima é bastante sensual, graças à beleza da fotografia e das jovens, mas também muito tenso.

Após três dramas sóbrios e realistas – “Começar de Novo” (2006), “Oslo, 31 de Agosto” (2011) e “Mais Forte que Bombas” (2015) – , a temática de “Thelma” surpreende na filmografia de Trier pelo apelo paranormal. Mas a qualidade permanece, já que foi selecionado como candidato da Noruega a uma vaga no Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

A última das quatro estreias de terror é a produção maranhense “Lamparina da Aurora”. Premiado no Festival de Tiradentes, o longa tem direção de Frederico Machado, proprietário da Lume Filmes e também responsável por um festival no Nordeste, e enfatiza atmosfera e silêncios sobre a narrativa. Descrito como uma fábula existencial sobre o tempo, o corpo e a natureza, a trama acompanha um casal de idosos que recebe a visita de um jovem misterioso todas as noites na fazenda abandonada em que vivem.

“Antes o Tempo Não Acabava” chega aos cinemas quase dois anos após iniciar sua trajetória internacional pelo Festival de Berlim de 2016. Rodado na Amazônia, o filme acompanha a história de um índio que enfrenta os líderes da sua comunidade e as tradições de seu povo para ir morar sozinho no centro de Manaus. Dividido entre rituais da tribo e a noite gay da capital do Amazonas, ele busca encontrar sua identidade como cidadão – seu “nome de branco”.

“Antes o Tempo Não Acabava” é o segundo longa do amazonense Sérgio Andrade, após o também premiado “A Floresta de Jonathas” (2012), e marca a estreia na direção de Fábio Baldo, que editou “A Floresta de Jonathas”. A temática LGBT+ lhe rendeu a vitória no Queer Lisboa 2016, Festival Internacional de Cinema Queer, realizado em Portugal.

A luta por direitos da comunidade LGBT+ também tem destaque no documentário “Meu Corpo é Político”, que aborda o cotidiano de quatro militantes que vivem na periferia de São Paulo: Linn da Quebrada, artista e professora de teatro, Paula Beatriz, diretora de escola pública no Capão Redondo, Giu Nonato, jovem fotógrafa em fase de transição, e Fernando Ribeiro, estudante e operador de telemarketing. Em discussão, temas como representatividade social e identidade de gênero.

Outro documentário, “Camara de Espelhos”, busca retratar a identidade feminina. Por meio de entrevistas realizadas com vários homens da Região Metropolitana de Recife, o filme visa mostrar como os homens enxergam o papel das mulheres na sociedade e reflete as violências sofridas pelas pessoas do sexo feminino no Brasil.

A história africana é explorado na coprodução entre Brasil, Portugal e Moçambique “Yvone Kane”, drama de ficção estrelado por Irene Ravache (“Memórias que Me Contam”), que acompanha uma investigação jornalística sobre a trajetória de uma antiga guerrilheira, morta na luta pela independência moçambicana. A diretora Margarida Cardoso nasceu na antiga colônia portuguesa, onde também filmou sua estreia, “A Costa dos Murmúrios” (2004), mas não faz thriller político ao delinear a personagem do título, usando-a apenas como pano de fundo de uma história sobre perdas.

A programação ainda tem o bem-intencionado, mas amador “Cromossomo 21”, história de amor de uma adolescente com Síndrome de Down. Totalmente independente, tem roteiro louvável.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna