Crítica: Colo retrata a depressão sufocante da crise econômica

 

A Revolução dos Cravos de abril de 1974 e a União Europeia trouxeram novos ventos, novas esperanças e novas possibilidades reais de avanço social, econômico e político a Portugal. Mas a crise bateu e trouxe desalento e frustração ao mundo familiar da classe média lusitana.

As pessoas precisam de colo, mas quem há de poder dar-lhes, em momentos de dureza e restrições, impostos por uma política de austeridade, que lá, como cá no Brasil, produz desemprego, perda de direitos, roubando sonhos dos jovens e deixando a todos exaustos?

“Colo”, da realizadora portuguesa Teresa Villaverde, é um mergulho no microcosmos doméstico que se esfacela pelo desamparo e diante da perda do direito à própria felicidade.

Quando o pai tem de viver um prolongado e desesperador período de desemprego, a mulher tem de multiplicar seus trabalhos para tentar suprir as necessidades da casa, enquanto a filha adolescente entra na fase de rebeldia e contestação. Tudo começa a desmoronar. Todos se distanciam, uns dos outros, e vão perdendo a capacidade de entrar em empatia com o que vive cada um. O filme mostra o desgaste da família que produz uma incapacidade de reagir ao que quer que seja. É destrutivo viver nesse desalento, nessa ausência de afeto, nesse desencanto diante da vida.

Teresa Villaverde se debruça também, em paralelo, na realidade próxima da adolescente e de seus amigos e de como eles enxergam a si mesmos, a seus pais e o quanto estão perdidos, sem saber como ajudar a superar a depressão da família.

O filme “Colo” é um contundente retrato do que acontece às pessoas quando a crise econômica se impõe e a felicidade parece um sonho distante. É um olhar para o desamparo do ser humano. Um olhar atento, preocupado, perplexo, não propriamente desesperançado, mas sem respostas para o momento.

A obra apresenta uma fotografia com tonalidades esmaecidas de cor. Nas filmagens externas, sugere um fim de tarde algo cinzento e, nos espaços internos, utiliza luz rebaixada, com ambientes escurecidos e até luzes de palco reduzidas por filtros. Isso, associado ao ritmo lento da evolução da narrativa e às performances contidas dos atores e atrizes, dá ao espectador a sensação clara de abatimento, que permeia a vida dos personagens, independentemente de qualquer diálogo.

Teresa Villaverde é uma cineasta importante de uma geração que se destaca a partir dos anos 1990, renova e dá novo vigor à produção autoral do país. Representa, também, uma leva crescente de mulheres atuando de forma intensa no cinema em todo o mundo, o que tem enriquecido e trazido novas perspectivas para a sétima arte.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar”,”No Meu Corpo Mando Eu”,”Sexo, Prazeres e Riscos”, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio