Crítica: A Morte Te Dá Parabéns supera trama batida de looping temporal

 

Uma das grandes vantagens dos filmes de horror para a indústria é que atraem público jovem e ainda costumam custar barato, sem precisar de atores famosos no elenco para conquistar boa bilheteria. Além disso, nem precisam ter uma história tão original assim, como se pode ver pelo sucesso de “A Morte Te Dá Pababéns!”, de Christopher Landon.

O filme é uma espécie de versão slasher da comédia romântica “Feitiço do Tempo” (1993), de Harold Ramis, em que Bill Murray acorda indefinidamente no mesmo dia. Outros filmes que também se apropriaram desta brincadeira incluem a sci-fi “No Limite do Amanhã” (2014), o melodrama teen “Antes que Eu Vá” (2017) e a comédia “Nu” (2017). Todos são filmes de “looping temporal”, que mostram protagonistas lutando para vencer uma situação a partir do conhecimento que adquirem pela repetição do mesmo fatídico dia.

São também filmes sobre jornadas de aperfeiçoamento pessoal, de aprender com os próprios erros. Por mais que pareça uma maldição ficar preso no mesmo dia, é também uma chance que o universo está dando para que a pessoa possa, enfim, aparar as arestas no modo como ela trata as pessoas e também, como é o caso de “A Morte Te Dá Parabéns”, descobrir a identidade do próprio assassino para, talvez, conseguir acordar viva no dia seguinte.

Na trama do diretor de “Como Sobreviver a um Ataque Zumbi” (2015), Jessica Rothe vive Tree, uma garota universitária que acorda no quarto de um dos rapazes. Pelo visto, um rapaz que ela mal conhecia. Até aí nada de mais, até a hora em que ela vai para uma festa e é surpreendida por um assassino mascarado. No dia seguinte e também nos posteriores, ela sofrerá novas mortes e tentará descobrir o que está acontecendo e o que pode fazer.

O suspense em torno da identidade do assassino consegue envolver o público jovem, que talvez nem conheça “Feitiço do Tempo”, a ponto de sugerir uma ressurreição do gênero slasher (se é que dá para chamar de uma ressurreição – talvez não). Os assassinos mascarados tinham ido parar nas séries (“Scream”, “Scream Queens” e “Slasher”), abandonando os filmes de horror recentes. Mas ajuda também o fato da obra não tentar ser muito pretensiosa. É até inocente, em muitos aspectos.

A trama é ainda mais feliz do ponto de vista do aperfeiçoamento do caráter da heroína. Logo de início, a protagonista é apresentada como alguém pouco afável e bastante arrogante, além de desinteressada em preservar os sentimentos dos outros. Sem falar em questões familiares pendentes. Isso é muito bem resolvido no filme, principalmente em uma das últimas sequências da narrativa.

Na verdade, a história melhora à medida que se aproxima de seu desfecho. Chega a surpreender. E isso é muito mais do que se poderia esperar de uma produção com trama batida, e ajuda a explicar sua boa bilheteria em sua estreia nos Estados Unidos. No mais, vale prestar atenção em Jessica Rothe, a protagonista. Ela esteve em um papel pequeno no premiado “La La Land” (2016) e poderá ser vista em breve encabeçando o remake de “Sonhos Rebeldes” (Valley Girl, 1983) e o romance country “Forever My Girl”. Carisma a moça tem.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.