Crítica: Bye Bye Alemanha usa de bom humor para tratar de tema sério

 

Os judeus alemães que conseguiram sobreviver ao regime nazista, logo após a 2ª Guerra Mundial, tinham um sonho comum: abandonar a Alemanha e partir para os Estados Unidos. É o caso de David Bermann (Moritz Bleibtreu) e seus amigos, em Frankfurt, em 1946. Com um negócio de família de venda de roupa fina para os alemães, foi possível obter o dinheiro para a viagem, e o visto para a América é quase automático na situação dele. Porém, ao examinar seus documentos e vasculhar seu passado recente, a oficial americana Sara Simon (Antje Traue) resolve investigar melhor e encontra coisas suspeitas.

O filme “Bye Bye Alemanha”, do diretor Sam Garbarski, conta a história desse personagem da vida real, do que ele relata e do que ele esconde, e vamos descobrindo uma personalidade cheia de nuances e jogo de cintura, que explicam sua sobrevivência. David tem também uma malandragem e uma vivacidade intelectual que, certamente, contam muito em situações extremas. Basta dizer que um dos elementos centrais nessa história é sua capacidade de contar piadas, nos momentos e situações mais improváveis. E o humor salva.

A trama é muito boa e muito bem contada, pelo cineasta que já nos deu dois bons filmes antes: “Irina Palm”, em 2007, e “O Tango de Rashevski”, em 2003. Seu estilo de narrar é tradicional e popular. Comunicativo e bem humorado, geralmente abordando temas bem sérios, como é o caso aqui.

O ator alemão Moritz Bleibtreu é talentoso e compõe muito bem o tipo retratado no filme. Ainda assim, para um personagem que conta piadas, ele é discreto demais. Ele optou por uma interpretação contida, considerando o contexto, mas talvez tenha exagerado um pouco na dose.

A personagem de Sara também comportaria mais expansividade. Ela enfatiza mais as suspeitas em relação ao personagem do que o acolhimento e o direito de considerá-lo uma pessoa inocente até prova em contrário, na maior parte do filme. Curiosamente, os dois atores principais trabalharam juntos em outro filme recente sobre as consequências do nazismo, “A Dama Dourada” (2015).

“Bye Bye Alemanha” traz uma boa caracterização de época, incluindo uma fotografia que, em tons sépia, cinza e ambientação escurecida, nos remete ao passado, e um passado nada glorioso. Não fosse o tom bem-humorado da realização, poderia resultar em um filme pesado. Não é o caso. Esse é um dos méritos de “Bye Bye Alemanha”: tratar com respeito, mas sem muita dramaticidade, um assunto grave. E por um ângulo inesperado, como verá quem for assistir ao filme.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar”,”No Meu Corpo Mando Eu”,”Sexo, Prazeres e Riscos”, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio