Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs é um baita filme

 

Daniel Rezende é pé quente. Seu primeiro filme como montador foi “Cidade de Deus” (2002). Já chegou com muita força, recebendo até indicação ao Oscar e um reconhecimento internacional que o levou a trabalhar com Terrence Malick, em “A Árvore da Vida” (2011). Sem falar em colaborações memoráveis em outros filmes marcantes de diretores brasileiros como Walter Salles, José Padilha, Laís Bodansky e novamente com Fernando Meirelles.

Ser um editor de filmes de sucesso de público deve ter lhe dado uma sábia compreensão do que se deve fazer para que um filme flua bem. Em “Bingo – O Rei das Manhãs”, sua estreia na direção de longas-metragens, não parece haver nenhuma gordura. Tudo no filme está ali muito bem amarradinho. Difícil perder o interesse em algum momento. E não só porque é uma obra que fala de assuntos que interessam a quem viveu os anos 1980 e assistia ao programa do Bozo – embora tenha um sabor especial para quem testemunhou aqueles anos de exageros.

“Bingo” tem uma estrutura mais clássica e um acabamento profissional que lembra bastante o cinema americano. Mas é, sim, um filme conceitualmente brasileiro, como foi a transformação do palhaço gringo Bozo em “coisa nossa”, como o Sílvio Santos, a Aracy de Almeida e o Pedro de Lara. Até a mudança do nome do palhaço para Bingo, por questões de direitos, contou para a “abrasileiração”, além de ampliar a liberdade da adaptação.

Todos os personagens, à exceção de Gretchen (Emanuelle Araújo, de “S.O.S.: Mulheres ao Mar”), são tratados por outros nomes. Arlindo Barreto, o verdadeiro personagem da história, virou Augusto Mendes, vivido de maneira inspirada por Vladimir Brichta (“Muitos Homens num Só”).

O fato de “Bingo” trafegar por caminhos sombrios é outro aspecto atraente. Até dá pra entender o fato de ter sido a Warner a distribuidora do filme aqui, já que é uma empresa que tem raízes nos filmes de gângster e nunca se desvencilhou totalmente dessa linha mais dark – inclusive, produziu o vindouro terror de palhaço “It: A Coisa”. Por sinal, “Bingo” também explora como a figura do palhaço pode despertar medo em algumas pessoas. E isso se reflete numa cena tão forte que leva a questionar se aquilo aconteceu de verdade com o Arlindo no SBT.

Na trama, Augusto Mendes é um ator de pornochanchada que está separado da esposa e tem uma relação muito próxima com o filho. Logo no começo do filme, o menino até chega a flagrar um pouco o trabalho do pai dentro daquele universo, numa época em que o cinema brasileiro era uma versão nua, crua e mais desbocada da dramaturgia que hoje é representada nas telenovelas da Globo. Inclusive, era possível ver algumas das atrizes globais nuas em determinados filmes. Isso fazia parte da graça da época e é representado no filme na figura da ex-esposa de Augusto.

As coisas ficam mais interessantes para o protagonista quando ele, depois de se sentir humilhado com uma ponta em uma novela da Rede Globo (no filme, Mundial), vai parar, sem querer, no teste para ser o palhaço Bingo, em uma das apostas mais caras do SBT, que aqui aparece com outro nome também. E é com sua inteligência e astúcia que ele consegue não só tirar sarro do produtor gringo, como mostrar, à sua maneira, que era preciso adaptar as piadas para o Brasil, se quisesse arrancar o riso e conquistar as crianças.

Mas o que mais encanta no filme é o quanto esse universo de programa infantil é tratado como uma fachada para a vida louca de Augusto, que bebia e cheirava muito nos bastidores, além de se envolver em orgias e desfrutar das loucuras que o dinheiro podia comprar. Talvez o ponto fraco do filme seja ter quase que uma obrigação de fazer um arco dramático para redimir o personagem, embora isso seja perfeitamente coerente com um tipo de cinema mais comercial – sem querer colocar nenhuma carga pejorativa no termo.

Os ingredientes que mais divertem e emocionam são as inúmeras referências pop dos anos 1980. Não apenas à televisão, mas ao comportamento da época e as canções escolhidas, com muita new wave brasileira, mas também duas lindas faixas do Echo and the Bunnymen. O que não quer dizer que também não haja uma trilha sonora original ótima, que se destaca principalmente nos momentos mais dramáticos e sombrios do filme. Claro que é possível encontrar alguns problemas nas interpretações e no roteiro, mas são coisas que podem ser relevadas diante de um todo brilhante. É um baita filme.

Embora o maior mérito seja de Rezende, a produção está repleta de técnicos ilustres: Lula Carvalho (“As Tartarugas Ninja”) como diretor de fotografia, Luiz Bolognesi (“Como Nossos Pais”) como roteirista, Marcio Hashimoto (“O Filme da Minha Vida”) como montador, Cassio Amarante (“Xingu”) na direção de arte, além de um elenco de apoio muito bom – como esquecer da cena do Brichta com a Leandra Leal (“O Lobo Atrás da Porta”) em um restaurante? Aliás, como esquecer tantas cenas memoráveis de “Bingo”? É o tipo de filme que merece ser visto e revisto, algo raríssimo entre os lançamentos do cinema nacional.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.