Crítica: Annabelle 2 é terror tradicional que funciona

 

Um filme que dialoga com o terror tradicional como “Annabelle 2: A Criação do Mal” (2017) pode passar a impressão de ser uma obra ultrapassada. Mas não deixa de ser admirável como o diretor David F. Sandberg consegue transformar o roteiro banal em algo elegante, em sua construção formal, e que sabe equilibrar a sutileza de mostrar o mal aos poucos, até revelar sua extensão de forma explícita em seu terceiro ato.

O primeiro filme sobre Annabelle já havia sido feito para explorar o sucesso da boneca numa trama paralela de “Invocação do Mal” (2013), que deixou muitas pontas soltas. E “Annabelle” (2014), dirigido por John R. Leonetti, provou-se razoável, embora pouco memorável. Com um cineasta melhor, como é o caso de Sandberg, responsável por “Quando as Luzes se Apagam” (2016), vem um filme mais caprichado, pelo menos na condução narrativa.

“Annabelle 2” é realmente o filme de origem da boneca, já que o longa anterior foi uma apresentação de fatos que antecederam o filme de Wan. Curiosamente, cada uma das três aparições da boneca acontece em ordem cronológica inversa.

O modo como Sandberg e o roteirista Gary Dauberman resolvem contar a história de origem é bem satisfatória, introduzindo inicialmente a família composta por um pai (Anthony LaPaglia, da série “Without a Trace”), uma mãe (Miranda Otto, da série “24: Legacy”) e sua filha (Samara Lee, de “O Último Caçador de Bruxas”). O modo como eles perdem a menina é brutal e funciona como um prólogo muito bom para a verdadeira história que virá a seguir, passando-se 12 anos após o trágico evento.

O salto no tempo apresenta novos personagens: um grupo de meninas que serão abrigadas na casa daquela família, que funcionará como orfanato. As que contarão para o espectador são as mais jovens, Linda (Lulu Wilson, de “Ouija: A Origem do Mal”) e Janice (Thalita Bateman, de “A 5ª Onda”). Esta segunda convive com uma sequela da poliomielite e tem dificuldade de locomoção. As duas são muito amigas e sonham em ser adotadas pela mesma família, para que se tornem, oficialmente, irmãs. Há, ainda, a personagem de uma amável freira (Stephanie Sigman, de “007 Contra Spectre”) que cuida das meninas e as demais crianças mais velhas, que já pensam em garotos e namoros, mesmo estando em um ambiente totalmente distante desse tipo de tentação.

E o filme prefere não adicionar personagens masculinos, o que acaba por ser uma boa escolha, já que isso dá mais mais força às várias personagens, mesmo à misteriosa Sra. Mullins (Miranda Otto), que vive o tempo todo trancada em um quarto, sem ser vista pelos demais habitantes do novo orfanato.

Há um cuidado especial na apresentação da casa, no quanto ela é grande e composta por lugares proibidos, como o quarto dos Mullins e, principalmente, o quarto onde habitava a garotinha morta Bee. O horror propriamente dito já começa no silêncio, ou melhor, no ainda não-dito, mas já previsto pelos espectadores. Aos poucos, pequenos eventos como janelas que se abrem sozinhas ou coisas do tipo vão ajudando a compor a narrativa de horror.

As explicações sobre o mal que habita a boneca são rápidas, mas funcionam, embora o mais importante seja o quanto a direção sabe lidar com os ataques que as forças malignas impõem às crianças, aproveitando-se de sua inocência e curiosidade. Há uma opção por evitar sustos fáceis, o que fornece mais dignidade à obra, embora tudo siga as convenções dos filmes de horror – os próprios movimentos da câmera antecipam, em cada cena, quando o que vem a seguir é algo assustador.

Em suma, “Annabelle 2” oferece ao público aquilo que ele espera. O espectador até mesmo imagina que, mais cedo ou mais tarde, verá a figura de uma freira maligna, fazendo com o que o filme tenha ligação também com “Invocação do Mal 2” (2016) e o vindouro spin-off sobre a freira, a ser dirigido por Corin Hardy (“A Maldição da Floresta”). Ou seja, “Annabelle 2” faz parte de um universo compartilhado, como as produções de super-heróis da Marvel. Há até mesmo uma cena pós-créditos. Ao menos, é um universo mais efetivo que o introduzido em “A Múmia”.

Comente

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.