Crítica: Introdução à Música do Sangue é filme autoral brasileiro que merece mais público

 

“Introdução à Música do Sangue” é um exemplo de filme autoral brasileiro que, apesar de sua sensibilidade e beleza, provavelmente alcançará um número reduzido de espectadores.

No foco da narrativa, um casal de idosos vive no interior de Minas Gerais ainda sem energia elétrica, uma existência muito simples e pobre, bem discrepante em relação às possibilidades tecnológicas que se estabeleceram ao longo do século 20 e deslancharam no 21. Ney Latorraca e Bete Mendes, dois intérpretes brilhantes, compõem os personagens do casal de idosos. Ela, à espera ansiosa da chegada da luz elétrica, para poder costurar numa máquina que lhe poupe o esforço físico do pedalar mecânico. Já ele, rejeita a chegada da energia elétrica, não quer mudar seu mundo, nem ter de pagar uma conta mensal de algo que ele julga desnecessário.

Por outro lado, há o despertar da sexualidade de menina (Greta Antoine) agregada à vida do casal, quando por lá aparece um jovem peão (Armando Babaioff), que vai acabar produzindo conflitos naquela vida pacata e parada no tempo.

Angústias vêm à tona, a repressão, o desejo, o descontrole se inserem na trama, instalando o drama e a tragédia onde nada parecia estar acontecendo. O que estava por vir, aflora subitamente. O que estava represado, emerge. O que estava contido, transborda.

O filme parte do argumento inacabado do escritor Lúcio Cardoso, com direção e roteiro do veterano Luiz Carlos Lacerda (“For All”, “Leila Diniz”) e uma magnífica fotografia de Alisson Prodlik. “Introdução à Música do Sangue” é todo filmado com a luz natural do dia e dos lampiões e velas acesos, à noite, o que contribui para criar uma ambiência poética para o mundo rural primitivo que retrata.

A direção de arte de Oswaldo Lioi, na zona rural de Cataguazes, onde ocorreram as filmagens, insere o espectador naquele ambiente. A música de David Tygel é bonita e envolvente. E ainda se destaca a belíssima melodia de Tom Jobim, “Derradeira Primavera”, em tratamento instrumental. Será uma pena se esse trabalho artístico de qualidade passar despercebido, enquanto tantas mediocridades comerciais alcançam cifras expressivas de público.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio