Crítica: A Garota Ocidental examina a repressão feminina na tradição muçulmana

 

Certos filmes se fazem necessários menos por suas implicações estéticas e mais pela necessidade de chamar atenção para injustiças sociais. Especialmente em se tratando de uma cultura muito resistente como a tradição muçulmana, que influencia variados povos, etnias e crenças com sua inequívoca mensagem de repressão feminina.

“A Garota Ocidental – Entre o Coração e a Tradição”, de Stephan Streker (“Michael Blanco”), apresenta história de Zahira (Lina El Arabi, da série francesa “Kaboul Kitchen”), uma jovem paquistanesa que é obrigada pela tradição a se casar com um homem paquistanês, mesmo morando em uma moderna cidade belga e contrariada com a imposição de sua família. Para piorar ainda mais a situação da moça, ela está grávida de um rapaz que não quer assumir a paternidade. Ela tenta, em algum momento, fazer o aborto, mas é impedida por sua consciência. Ela pede para que o procedimento seja interrompido.

Um dos grandes méritos do filme é colocar o espectador no lugar de Zahira, já que, desde o começo, sentimos uma angústia que permanece até o fim da projeção. Aliás, que permanece um bom tempo depois que os créditos sobem. Mas será que a culpa do destino de Zahira é mesmo da religião e da cultura, elementos que aprisionam as pessoas, ou há algo que se aproxima de maldade pura na história? O que é mostrado no filme é uma questão complexa, mas não deixa de conter esse tipo de questionamento.

O filme tem uma aproximação tão forte com a protagonista que quase beira um registro documental, com uso de câmera na mão em diversos momentos. Mesmo os momentos em que Zahira tenta se libertar, fugindo de casa ou mesmo da cidade, com um rapaz que diz gostar dela, parecem inquietantes, pois há sempre uma impressão de algo muito ruim que esteja prestes a acontecer.

Isso demonstra a força da direção de Streker, cineasta belga que tem sua primeira obra lançada no Brasil em circuito comercial. E talvez tenha chamado atenção dos distribuidores justamente pela temática apelativa, no bom sentido do termo.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.