Crítica: Dégradé acompanha cotidiano de um salão de beleza da Palestina

 

Num salão de beleza cheio de mulheres, rola papo sobre os relacionamentos com os homens, as fofocas, notícias e amenidades. Num salão de beleza em dia de verão, na Faixa de Gaza, com a energia ligada, também. Entretanto, o clima é muito mais tenso e incerto. Para começar, porque a energia pode acabar a qualquer momento e aí tudo se complica. O salão de Christine tem até um precário gerador próprio, para amenizar a situação. Mas lá fora podem-se ouvir tiros, há um leão, o único do zoo local, que foi roubado e circula pela rua monitorado por bandidos. O exército israelense exerce um controle opressor sobre o pedaço. Imagine se o grupo terrorista Hamas decidir acertar as contas por lá. Tudo muito difícil.

Só que um salão desses continua funcionando, ainda que nas condições aqui descritas. Uma noiva, uma grávida, uma religiosa, uma divorciada insatisfeita, uma viciada em remédios tarja preta e uma interessada demais na vida dos outros estão por lá, tentando se arrumar e se cuidar. Convivem num microcosmos que pretende refletir a realidade das mulheres daquela sociedade e o seu entorno infernal.

É disso que trata o longa palestino “Dégradé”, dirigido pelos jovens irmãos gêmeos Tarzan e Arab Nasser (nomes artísticos de Ahmad e Mohammed Abou Nasser), que contou com a participação financeira da França e do Qatar, e teria se inspirado em fatos reais, ocorridos em 2007. É estranho, mas perfeitamente possível. A realidade, por vezes, supera a mais audaciosa ficção.

O filme, sem ser nenhuma obra de arte, é um bom trabalho, com boas sequências e boas atrizes, com destaque para a excelente Hiam Abbass, que já estrelou muitas produções do Oriente Médio, como “A Noiva Síria” (2004), “Paradise Now” (2005), “Uma Garrafa no Mar de Gaza” (2007), “A Fonte das Mulheres” (2011) e até longas hollywoodianos, como “Munique” (2005), de Steven Spielberg, e “Êxodo: Deuses e Reis” (2014), de Ridley Scott.

Não é todo dia que se pode ver um filme da Palestina, que consegue nos trazer as emoções do que se vive por lá, nessa zona conflagrada, onde parece não haver espaço para a vida comum do dia a dia. A vida a que todos têm o direito de ter.

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Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio