Crítica: Haters não impedem Punho de Ferro de ser ótima e aprovada pelo público da Netflix

 

Quarta produção de super-heróis Marvel produzida pela Netflix, a série “Punho de Ferro” é um grande sucesso, segundo a empresa Parrot Analytics, que mede a popularidade de programas de streaming com base nas interações dos usuários nas redes sociais.

A Parrot determinou que o público adorou a produção com base em manifestações positivas encontradas na internet. Entre todas as atrações da Marvel/Netflix, só teria gerado menos repercussão que “Luke Cage”.

Os haters não devem se conformar, pois imaginavam uma rejeição maciça após as pedradas de críticos precipitados, que determinaram que “Punho de Ferro” eram ruim com base nos seis primeiros episódios – o número de capítulos antecipados pela Netflix para a confecção de resenhas. Diversas críticas lamentaram um suposto ritmo lento, as lutas mal coreografadas de artes marciais e, por incrível que pareça para os fãs dos quadrinhos, o fato de o protagonista não ser asiático.

Mas a verdade é que “Punho de Ferro” não é, nem de longe, a pior série de super-herói produzida pela Netflix. Muito antes pelo contrário. Tendo como comparação a fraca “Luke Cage”, a mediana “Jessica Jones” e os altos e baixos de “Demolidor”, é a série mais coesa, que nunca se desvia de sua história central, num crescendo constante.

Seu principal defeito é ser vítima de um formato estabelecido e repetido pela Marvel desde a 1ª temporada de “Demolidor”. As quatro atrações que o estúdio criou para a Netflix têm praticamente a mesma estrutura. Todas usam flashbacks para contar a origem de seus protagonistas, deixando muitos “buracos” na história, que os fãs dos quadrinhos precisam completar com as recordações de suas leituras.

No caso do “Punho de Ferro”, a situação se complica pela falta de orçamento para dar aos flashbacks a grandiosidade do filme do “Doutor Estranho”. Afinal, Danny Rand, o herói do Punho de Ferro, tem uma origem mística não muito diversa da jornada de Stephen Strange.

Criado nos anos 1970 por Roy Thomas, o roteirista que substitui Stan Lee como editor da Marvel, os quadrinhos do herói combinavam dois grandes sucessos televisivos da época, as séries “Kung Fu” (que estabeleceu a estrutura da origem em flashback) e “Dallas”. A adaptação, porém, preferiu passar por cima de todo o aprendizado do “gafanhoto” Danny Rand para se concentrar na história do empresário Danny Rand, lutando para retomar o controle da empresa criada por seu pai.

Mas mesmo limando o aprendizado do protagonista e sem jamais mostrar a tão citada cidade mística de K’un-Lun, a produção consegue ser bem-sucedida em sua proposta de juntar “Dallas” com lutas de kung fu. E, sim, as lutas melhoram muito, conforme os episódios avançam, chegando a superar as de outras séries da companhia nos últimos episódios.

É importante destacar ainda que “Punho de Ferro” lançou a melhor personagem feminina da Marvel (sorry, Jessica Jones). Collen Wing rouba as cenas com uma jornada repleta de reviravoltas e um desempenho encantador de Jessica Henwick (série “Game of Thrones”) – de dar vergonha na forma como Elektra foi utilizada na 2ª temporada de “Demolidor”.

Na verdade, não há nada de ritmo lento em sua trama, que aproveita cada minuto disponível para desenvolver muito bem seus personagens, que são os mais matizados de todas as produções da Marvel. Não há ninguém mau demais nem bom demais. Todos tem falhas, inclusive o herói. E há grandes atuações, como a de um surpreendente Tom Pelphrey (série “Banshee”), capaz de evocar as dualidades rival/aliado, vilão/herói e fazer o espectador mudar várias vezes de ideia a respeito de seu personagem, o empresário Ward Meachum.

Faltou um grande supervilão? Talvez por a trama visar maior realismo que as outras séries. Até os ninjas do Tentáculo entram em cena com trajes de tropa de elite.

Por outro lado, a tentativa de fincar a produção num plano mais factível é responsável pelo único equívoco realmente notável. Não há wire fu, o kung fu voador dos filmes chineses de wuxia, embora tudo na história pedisse por isso, desde as menções à cidade mística ao mundo mágico do Tentáculo.

E embora Finn Jones (série “Game of Thrones”) seja o elo mais fraco, a sugestão de escalar um ator asiático para viver o protagonista – um jovem herdeiro americano – não foi evocada na adaptação de “Doutor Estranho” – cuja origem também envolve monges, filosofia oriental e encenação nas mesmas cordilheiras.

Bruce Wayne (Batman), Oliver Queen (Arqueiro Verde) e Tony Stark (Homem de Ferro) também são herdeiros bilionários que desenvolveram suas habilidades no oriente. Se a história de Danny Rand não traz novidade nesse sentido, dizer que Punho de Ferro deveria ter uma etnia mais “politicamente correta”, apenas com base no kung fu, ecoa o oposto de um pensamento progressista. Apenas reforça o estereótipo do tipo de papel que um asiático pode interpretar em Hollywood.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna