Crítica: Volta de Mel Gibson em Herança de Sangue empolga mais que o próprio filme

 

Quem aprecia o trabalho de Mel Gibson, seja o ator ícone dos anos 1980 e 1990, seja o grande diretor que se revelou, sempre torce por um retorno triunfal, depois dos vacilos que viraram sua vida do avesso e o tornaram persona non grata para muitos. E enquanto sua volta retumbante à direção não estreia – “Até o Último Homem”, aplaudido de pé por 10 minutos no Festival de Veneza, só chega em janeiro – , “Herança de Sangue” quebra o galho, permetindo rever Gibson como ator.

Produção francesa travestida de hollywoodiana, “Herança de Sangue” tem direção de Jean-François Richet, cuja estreia hollywoodiana de fato se deu com o remake “Assalto à 13ª Delegacia” (2005). Assim como aquele, o novo filme de Richet evoca o cinema B de ação, mas tem os seus méritos, principalmente para fãs de Gibson, ao modelar o novo protagonista em heróis oitentistas, como Max Rockatansky e o detetive Martin Riggs. Essas citações chegam a ser explícitas e funcionam como uma piscadela de olho do diretor (e do ator) para o público.

“Herança de Sangue” não é muito diferente dos melhores e dos piores filmes estrelados pelo ator. E aí entra uma característica praticamente autoral. Ainda que idealizados e dirigidos por outras pessoas, os longas estrelados por Gibson acabam trazendo personagens que dialogam entre si, perpetuando o tom trágico de seus heróis falhos, retratados como suicidas, meio maníacos ou incutidos por algum sentimento de culpa que remete ao catolicismo fervoroso do ator. Basta lembrar de obras tão distintas quanto “Mad Max” (1979), “Máquina Mortífera” (1987), “Hamlet” (1990), “O Patriota” (2000), “Fomos Heróis” (2002), “O Fim da Escuridão” (2010) e “Um Novo Despertar” (2011).

Novamente temos um personagem que se martiriza, dessa vez por não ter dado uma educação ou uma atenção adequadas à filha, que se encontra desaparecida e envolvida com pessoas pouco confiáveis. Logo no começo, vemos o quanto a vida da menina (Erin Moriarty, da série “Jessica Jones”) anda louca. Mas o personagem de Gibson também não se saiu muito melhor, como um ex-presidiário que mora em uma comunidade de trailers no meio do deserto. Ele trabalha como tatuador e exibe as rugas da idade, mostradas em vários closes-ups ao longo do filme.

A história, porém, é bastante superficial, e lá pela metade do filme já tende a aborrecer, perdendo-se em clichês. Até mesmo os aspectos trágicos e de sacrifício, que costumam ser muito bem explorados nos filmes dirigidos pelo próprio Gibson, como os excelentes “Coração Valente” (1995) e “A Paixão de Cristo” (2004), acabam minimizados por Richet na condução da trama. Ao final, o personagem e seu intérprete provam-se muito melhores que o filme medíocre em que se encontram.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.