Crítica: Nós Duas Descendo a Escada registra paixão lésbica com olhar de cinéfilo

 

O diretor Fabiano de Souza, que estreou com o interessante “A Última Estrada da Praia” (2010), estabeleceu uma dinâmica inusitada para as filmagens de seu segundo longa, “Nós Duas Descendo a Escada”. Durante quase um ano, as atrizes Miriã Possani (também de “A Última Estrada da Praia”) e Carina Dias (“13 Histórias Estranhas”) tiveram dois encontros mensais para rodarem as suas participações, estratégia para buscar uma autenticidade nos efeitos desgastantes de um relacionamento a princípio sem compromisso.

De um lado, temos Adri (Miriã Possani), jovem de 24 anos recém-formada que trabalha em uma livraria enquanto ambiciona por uma carreira artística. Do outro, há Mona (Carina Dias), arquiteta bem-sucedida prestes a completar 30 anos que, ao contrário de Adri, lida com muita libertinagem quanto a sua sexualidade.

A insegurança de uma e a confiança da outra são os principais elementos opostos que se atraem, mas logo as distinções entre essas duas mulheres dificultarão a relação, fazendo com que a narrativa (também da autoria de Fabiano de Souza) tente encontrar alguns pontos de fuga do padrão de algo que se oferece como uma comédia romântica. Mas o resultado pretendido é diferente do que se efetiva na tela.

O lado cinéfilo do diretor e roteirista fica em evidência em inúmeras passagens de “Nós Duas Descendo a Escada”. Para ilustrar a passagem do tempo, recortes de jornais ganham a tela, geralmente destacando notícias sobre os lançamentos da época (as filmagens aconteceram entre 2011 e 2012) ou acontecimentos impactantes, como o falecimento de Carlos Reichenbach.

Essa devoção pelo cinema também se manifesta nas interações entre personagens. Divertida, há uma cena em que Adri e Mona se comunicam em uma locadora a partir de títulos de alguns DVDs. No entanto, na maior parte do tempo, as referências geram diálogos deslocados, insípidos. Por exemplo: ao chegar a uma festa de Mona, Adri se apresenta para uma convidada que afirma ela é mágica por estar de vermelho. “A fraternidade é vermelha”, Adri responde.

E assim como em “Azul É a Cor mais Quente”, o direcionamento das coisas leva a acreditar que um rompimento entre Adri e Mona seja muito mais crível do que a continuidade de seu namoro. Existe um esforço em tornar a troca de afetos o mais íntima possível. Ainda assim, são duas pessoas sem sintonia, que na realidade não passariam do sexo casual. Tanto que o único instante em que um choque de realidade despenca em “Nós Duas Descendo a Escada” é aquele em que Adri e Mona atacam uma a outra com um sem número de verdades, até que concluem que definitivamente pertencem a universos diferentes.

O drama de “Nós Duas Descendo a Escada” é que não há nada pior do que um romance que oferece mais contras do que prós para (des)acreditar na união de um casal.

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Alex Gonçalves nasceu e reside em Santo André e, desde a infância, tem o cinema como uma parte indispensável de sua vida. Graduando em Jornalismo, realiza cobertura de lançamentos e explora produções de outras épocas sem distinção de cinematografias e gêneros. É também editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007.