Anna Muylaert chama de “golpe” e ridiculariza seleção de Pequeno Segredo para o Oscar 2017

Anna Muylaert chama de “golpe” e ridiculariza seleção de Pequeno Segredo para o Oscar 2017

 

A cineasta Anna Muylaert, que decidiu não disputar a candidatura brasileira à vaga de Melhor Filme de Língua Estrangeira do Oscar 2017, resolveu atacar abertamente a escolha de “Pequeno Segredo”, de David Schurmann. Além de usar seu Facebook para chamar a vitória de “golpe”, ela publicou em sua timeline um cartaz manipulado do filme, que substitui seu título por “Pequeno Golpe”.

A respeitada e premiada cineasta, que votará no Oscar 2017, demonstrou estar pronta para representar o país na Academia, dando uma lição irretocável de como se deve tratar os diretores de cinema do Brasil, após ironizar até o “esfuziante” agradecimento de Schurmann pela conquista.

Responsável pelo brilhante “Que Horas Ela Volta?”, selecionado como representante nacional em 2016, ela ainda conseguiu respaldo, em seus comentários, de outros profissionais da classe cinematográfica, que, assim como ela, não viram mas também se manifestaram contra o filme.

A ironia fina de “classe” é que a mesma turma havia se insurgido há pouco tempo contra um crítico da comissão selecionadora, que lamentou a photo-op do filme “Aquarius” no Festival de Cannes, porque ele teria criticado o filme sem ver. Não foi o que ele fez. Mas é exatamente o que a classe faz em relação a “Pequeno Segredo”.

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Além de brincar que “Aquarius” não foi selecionado “porque Sônia Braga deu pedaladas fiscais” e que “O Pequeno Golpe” foi “dirigido por Michel Temer e cia.”, a diretora, que atualmente finaliza um documentário sobre o Impeachment de Dilma Rousseff – e quem poderá agora chamá-lo de isento? – , ainda escreveu, em tom mais sóbrio:

“É natural imaginar que Kleber Mendonça Filho esteja agora chateado com esse golpe relativo a escolha de um outro filme para comissão do Oscar. Imagino que esteja mesmo. Mas do meu ponto de vista o maior prejudicado não foi nem é Kleber e sua equipe e sim o cinema brasileiro. Houve sim uma grande batalha nos últimos anos em várias esferas, Ancine – Manoel Rangel e Eduardo Valente sem falar do Cinema do Brasil – pessoas e entidades que vem lutando tanto pela qualidade do cinema brasileiro quanto por sua visibilidade no exterior. Ora Kleber Mendonca fez um filme – goste-se ou não – importante, extremamente bem dirigido e que conquistou uma vaga na competição de Cannes – a mais difícil do mundo. Alem disso, está tendo sucesso de publico e de critica no seu país de origem. Escolher outro filme para representar o Brasil agora – um filme que ninguém viu – não é apenas uma derrota para ‘Aquarius’ – Filme – , é antes de tudo uma mudança de rumo nos paradigmas de qualidade que viemos construindo todos nós juntos há anos. O que esperar do futuro? Que os amigos de Michel Temer sejam daqui pra frente os grandes autores do cinema brasileiro – independentemente de sua qualidade ou mesmo de sua representatividade junto ao publico? A resposta é triste e é: provavelmente sim. Com esta escolha de hoje, enterramos muito mais que um filme. Enterramos um paradigma de qualidade e legitimidade para o cinema brasileiro. Quando se está vivendo sob a égide de um golpe nacional, porque haveria de ser diferente com o cinema?”

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna