Stan Lee e James Gunn são convocados para defender escolha de Zendaya como Mary Jane

 

Uma década após Keanu Reeves ser criticado por não ser loiro e britânico, ao estrelar “Constantine” (2005), as características físicas dos personagens de quadrinhos são cada vez menos levadas em conta pelos diretores de casting de Hollywood. Depois do Tocha Humana negro – e vários outros personagens originalmente brancos – é a vez de Mary Jane Watson, a icônica ruiva da vida do Homem-Aranha, ser interpretada por uma atriz negra, Zendaya (série “No Ritmo”).

Hollywood é mesmo consistente em reprisar seus erros, veja-se a quantidade de remakes fracassados que lança todo o ano. A discussão sobre a alteração racial dos personagens de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” – além de Mary Jane, os colegas de escola de Peter Parker, como Flash Thompson, Ned Leeds e Liz Allen, serão todos negros – já domina as redes sociais. Mas a polêmica podia ser evitada, pois reprisa a discussão do Tocha Humana negro e até da Mulher-Invisível latina, do “Quarteto Fantástico” de 2005.

Há quem defenda que os fãs estão errados. Que meio século de quadrinhos não devam ser levados em consideração. E que é bacana decepcionar quem lê os gibis, porque… sabe-se por qual lógica de mercado, acreditam que o consumidor nunca tem razão. Vai ver que é por isso que todos os filmes em que Hollywood apostou contra os fãs se provaram fracassos de bilheteria. É certo que o subtítulo “De Volta ao Lar” (Homecoming) já soa como propaganda enganosa, pois não há sensação alguma de retorno a ambiente conhecido com um elenco tão diferente dos personagens clássicos.

Diante da rejeição, a Marvel já começou a seguir a dica da Sony, sua parceira na produção, que enfrentou o mesmo problema de relações públicas com sua versão feminina de “Os Caça-Fantasmas” – taí outra prova da reincidência de Hollywood. Para começar, já explora a tática de que é racismo não aprovar o elenco negro do filme – como era machismo achar que “Caça-Fantasmas” não tinha graça…

O segundo capítulo do manual dos spin doctors é escalar porta-vozes influentes para defender a escolha considerada equivocada. Os primeiros funcionários da Marvel convocados para a missão foram Stan Lee, criador do Homem-Aranha, e James Gunn, diretor de “Guardiões da Galáxia”.

Stan Lee deu sua declaração dizendo não é contra Zendaya viver Mary Jane. “Se ela for uma boa atriz, como eu tenho escutado que é, ela vai se sair muito bem”, disse, de forma suscita.

Mas James Gunn preferiu ir além, defendendo o marketing estilo patrulha ideológica ao dizer-se incomodado com os “racistas”:

“Para mim, se uma característica básica da personagem – o que faz delas icônicos – é a cor de sua pele, a cor de seu cabelo, francamente, essa característica é superficial e não presta. Pra mim, o que faz MJ ser MJ é a sua descontração de uma fêmea alfa, e se a atriz captar isso, logo, ela funcionará. E, pra constar, eu acho que Zendaya combina com o que eu considero as características físicas básicas de MJ – uma modelo alta e magra – muito mais que atrizes [que a interpretaram] no passado.

Qualquer que seja o caso, se nós continuarmos fazendo filmes baseados nos heróis e personagens secundários quase todos brancos dos quadrinhos do último século, nós teremos que nos acostumar com eles sendo mais reflexivos da diversidade do nosso mundo atual. Talvez possamos ser abertos à ideia de que, embora alguém inicialmente não combine com como pessoalmente imaginamos um personagem, nós podemos ser – e frequentemente somos – surpreendidos positivamente”, afirmou Gunn.

É importante completar dizendo duas coisas sobre isso. O mesmo James Gunn criou vários personagens coadjuvantes especialmente para o filme “Guardiões da Galáxia”. Todos eles foram interpretados por atores brancos. Teoria 10 x 0 Prática = Falácia 1000.

Finalmente, a característica “superficial” da personagem foi o que a definiu nos quadrinhos. A escolha da cor do cabelo foi importante para o impacto que sua primeira aparição causou em Peter Parker. Na época, o desenhista John Romita assumiu ter se inspirado na atriz Ann-Margret, que virava a cabeça dos homens dos anos 1960, inclusive de Elvis Presley, citando sua personagem no filme “Adeus, Amor” (1963) como base para a criação de Mary Jane. Ann-Margret, por sinal, era insinuante, sexy e cheia de curvas. Ela nunca foi “uma modelo alta e magra”, as “características físicas básicas de MJ”, segundo James Gunn.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna