Sonia Braga e Kleber Mendonça Filho polemizam com Ministro da Cultura

Sonia Braga e Kleber Mendonça Filho polemizam com Ministro da Cultura

 

A atriz Sonia Braga e o diretor Kleber Mendonça Filho responderam às críticas feita pelo Ministro da Cultura Marcelo Calero ao protesto político da equipe de “Aquarius” no tapete vermelho do Festival de Cannes. O Ministro fez seu comentário durante entrevista no programa “Preto no Branco”, do Canal Brasil, o cineasta e a atriz responderam com um posts no Facebook.

O motivo da nova polêmica foram as expressões usadas por Calero, que classificou o protesto de “quase infantil” e “até um pouco totalitário”. Vale lembrar o caso. No tapete vermelho do Festival de Cannes, o diretor Kleber Mendonça Filho, os atores Sonia Braga, Humberto Carrão e Maeve Jinkings, entre outros envolvidos na produção, levantaram cartazes que chamavam de golpe de estado o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Um dos cartazes chegava a afirmar, em inglês, que “O Brasil não é mais uma democracia”.

Calero disse que o ato pode ter prejudicado a imagem do país internacionalmente. “Como qualquer manifestação, tem que ser respeitada, isso está fora de questionamento. Agora, acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil”, ele afirmou durante a entrevista. “Estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil.”

Em seu Facebook, Mendonça Filho respondeu com o post de uma reportagem a respeito de um editorial do jornal “The New York Times” que questiona o compromisso do presidente Michel Temer em combater a corrupção. O texto menciona a ficha suja de ministros do governo. Junto do link, o cineasta escreveu: “Caro Ministro Calero, talvez isso aqui redefina sua noção de o nosso país passar vergonha internacionalmente. O The New York Times é o mesmo jornal de influência mundial que incluiu meu filme anterior – ‘O Som ao Redor’ -, fruto do MinC, entre os 10 Melhores de 2012, um orgulho para a Cultura Brasileira. Abs, Kleber”.

Sonia Braga foi ainda mais aguda. “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro?”, indagou Sonia. “Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato”, disse. Ela é mais clara na parte que sobe o tom: “o Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora”.

A atriz abre o texto lembrando da diferença de idade entre os dois — Calero tem 33 anos, enquanto Sonia completa 66 nesta quarta-feira, 50 deles dedicados à profissão. “Na época da Abertura, os artistas não tinham sequer uma lei que regulasse a profissão. Essa lei foi promulgada em 1978, depois de muita luta, da qual tive a honra de participar. Naquela época, acredito, o senhor Marcelo ainda não havia nascido. Por isso, não deve ainda ter tido tempo de aprender sobre os nossos problemas e os nossos direitos”, relembrou, em tom professoral.

Por fim, Sonia lembra que “Aquarius”, longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi um sucesso de crítica no 69º Festival de Cannes: “A propósito, as críticas para ‘Aquarius’ foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior”.

Ela encerra o texto com uma lição de moral: “senhor ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna