Transexual indicada ao Oscar decide boicotar a cerimônia de premiação

Transexual indicada ao Oscar decide boicotar a cerimônia de premiação

 

A cerimônia do Oscar 2016 ganhou mais uma polêmica, na véspera de sua realização. E novamente envolve a questão da diversidade. Segundo artista transexual da História a ser indicada a uma estatueta, a cantora inglesa Anohni anunciou que vai boicotar a premiação, porque não poderá cantar a música pela qual concorre na categoria de Melhor Canção Original.

Líder da banda Antony and the Johnsons, que fundou quando ainda era conhecida como Antony Hegarty, a cantora foi indicada pela música “Manta Ray”, composta em parceria com J. Ralph para o documentário “Racing Extinction”. Entretanto, ela não foi convidada para se apresentar no palco da festa marcada para o próximo domingo (29/2).

Em um desabafo postado em seu site oficial, ela explicou porque decidiu boicotar a premiação, ao mesmo tempo em que comete uma gafe, ao desconsiderar a pioneira Angela Morley.

“Sou a primeira transgênero a ser indicada, e devo agradecer por isso aos artistas que votaram em mim. Estava na Ásia quando recebi a notícia. Desde então, passei a procurar algo, no caso de ser convidada para apresentar a canção. Todo mundo me ligou para dar os parabéns. Uma semana depois, os nomes de Sam Smith, Lady Gaga e the Weeknd foram anunciados. Outros seriam revelados ‘em breve’. Confusa, sentei e esperei. No entanto, ninguém me procurou”.

Apesar de sua declaração, Anohni não é a primeira artista transgênero a disputar a premiação da Academia. A pioneira Angela Morley (nascida Walter Stott) concorreu não apenas uma, mas duas vezes ao Oscar na categoria musical durante os anos 1970, como compositora de canções de “O Pequeno Príncipe” (1974), seu primeiro trabalho após a cirurgia de “ajuste sexual”, e “O Sapatinho e a Rosa: A História de Cinderela” (1976). Na época, entretanto, sua condição sexual era mantida em sigilo. Foi por isso, também, que Morley preferiu trabalhar, sem receber créditos, nas trilhas de seu amigo John Williams, a partir de 1977. Sim, ela compôs boa parte das músicas ouvidas na trilha de “Guerra nas Estrelas” (1977).

Morley também trabalhou sem o devido reconhecimento em “O Império Contra-Ataca” (1980), “Superman – O Filme” (1978) e “E.T. – O Extraterrestre” (1982), entre muitos outros sucessos de bilheteria, mas venceu três Emmys (dois deles para especiais televisivos de Julie Andrews) e conquistou o respeito da indústria, a ponto de ser convidada pela própria Academia a arranjar um medley das trilhas indicadas ao Oscar de 2001, apresentado durante a cerimônia. Ela faleceu em 2009, aos 84 anos de idade.

Apesar de ignorar Morley, Anohni disse, em seu desabafo, não acreditar ter sido excluída por ser trans, aceitando o fato de que os artistas anunciados têm mais apelo comercial. No entanto, ressaltou que uma vida marcada por rejeições fez com que ela não pudesse deixar de notar mais essa.

“Todo mundo me disse que, mesmo assim, eu deveria ir ao prêmio. Que passar pelo tapete vermelho seria ‘bom para a minha carreira’. Noite passada, tentei me forçar a entrar num avião rumo a Los Angeles para os eventos que envolvem os indicados. Mas o sentimento de constrangimento e raiva me nocauteou. E não pude entrar na aeronave”.

Como Antony Hegarty, ela gravou quatro discos da banda Antony and the Johnsons. Mas, no ano passado, anunciou a decisão de seguir em carreira solo, prometendo a estreia de seu primeiro álbum como Anohni, “Hopelessness”, para 2016.

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna