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Maureen O’Hara (1920 – 2015)

 

Morreu a lendária atriz Maureen O’Hara, uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, conhecida por papeis de mulheres fortes. Ela faleceu no sábado (24/10), enquanto dormia em sua casa em Boise, no estado americano de Idaho, aos 95 anos de idade. Em seus últimos momentos, os parentes a homenagearam colocando para tocar a trilha de seu filme favorito, “Depois do Vendaval” (1952), no qual protagonizou um dos beijos mais celebrados do cinema.

Com uma carreira repleta de sucessos, Maureen chegou a ser chamada de “a rainha do Technicolor”. Seus olhos verdes e cabelo ruivo incandescente marcaram época em clássicos de cores vibrantes. Mas, além de ícone de beleza, ela era reconhecidamente talentosa, tornando-se uma das atrizes favoritas do exigente John Ford, com quem fez cinco filmes. Irlandesa legítima, também tinha um gênio explosivo, que contrastava com o sorriso encantador exibido em seus filmes. Estrelou mais de 60 longas, quase todos campeões de bilheteria.

Ela nasceu Maureen FitzSimons em Dublin, na Irlanda, em 17 de agosto de 1920, numa grande família católica. Tinha cinco irmãos, mas nunca passou necessidades. Seu pai era um empresário bem-sucedido do ramo de roupas, que ainda possuía um time de futebol – o Shamrock Rovers. E sua mãe era uma cantora de ópera e também uma costureira renomada.

Encantada com a carreira artística da mãe, ela frequentou escolas de representação desde criança, sonhando em virar uma atriz de teatro. Com apoio da família, estudou drama, canto e dança dos 6 aos 17 anos de idade, vencendo diversos prêmios de teatro amador, ao mesmo tempo em que aprendeu contabilidade e datilografia por insistência do pai – para ter uma profissão, caso a vida teatral não desse certo. Curiosamente, estas habilidades se provariam úteis até mesmo no cinema, quando, anos mais tarde, ela precisou transcrever notas de John Ford sobre a adaptação cinematográfica de “Depois do Vendaval”.

Aos 18 anos, Maureen viajou para Londres com a mãe, decidida a fazer testes para o cinema. Ela fez sua estreia em 1938, aparecendo em seu primeiro filme, “Kicking the Moon Around”, uma comédia musical em que viveu uma secretária, dizendo apenas uma frase. Este começo modesto seria relançado anos depois, após ela se tornar famosa, com o título “Millionaire Merry-Go-Round” e destacando o nome da mera figurante em exibições na televisão.

Após o segundo filme, “My Irish Molly” (1938), outra comédia musical derivativa, Maureen nunca mais usou seu nome real. A obra também foi o fim de sua carreira de figurante. Ela não passou no teste para conseguir novos papeis. Usando maquiagem pesada, um penteado ornamental e um vestido de lamé dourado, com mangas no formato de asas, a atriz se sentiu presa e constrangida diante das câmeras. Chegou a pensar que não servia para aquilo. E o estúdio concordou.

O teste infame, porém, não foi destruído. Como de praxe, ele acabou exibido, entre diversos outros, para equipes de produção. Charles Laughton, o primeiro ator inglês a vencer o Oscar por um papel num filme britânico (“Os Amores de Henrique VIII”, de 1933), foi dos curiosos que assistiu ao rolo. Ele tinha capitalizado seu status de celebridade para formar uma sociedade com o igualmente famoso produtor alemão Erich Pommer (de “Metrópolis” e diversos clássicos expressionistas), com quem fundou o estúdio Mayflower Pictures. Em busca de novos talentos para seu estúdio, viu algo sob a maquiagem e a roupa exageradas, convencendo seu sócio de que havia muita expressividade no olhar da atriz, apesar daquele desempenho horrível.

Laughton apostou alto, assinando um contrato de sete anos com a jovem, acreditando que ela explodiria assim que aparecesse nas telas. Para distanciá-la ainda mais de seu começo de figurações, convenceu-a ainda a mudar de nome, virando Maureen O’Hara. Era mais sonoro e menor para escrever nas markees (o quadro que costumava ficar na parte superior das fachadas dos cinemas, anunciando a programação).

Quando eu cheguei em Hollywood, lamentei não poder ter feito mais papéis dramáticos, porque eu fotografava tão belamente à cores” – Maureen O’Hara

O nome Maureen O’Hara já surgiu como estrela das markees, protagonizando o próximo filme estrelado por Laughton, “A Estalagem Maldita” (1939), um suspense de época dirigido por ninguém menos que Alfred Hitchcock. Nos bastidores, ela acabou se envolvendo com um produtor associado, George H. Brown, com quem se casou secretamente. O enlace foi mantido longe da imprensa para criar a ilusão de que ela ainda poderia ser conquistada.

Como previsto, sua presença foi um dos destaques da produção e Laughton imediatamente a escalou para coestrelar “O Corcunda de Notre Dame” (1939), vivendo a mais bela cigana Esmeralda do cinema, na adaptação do clássico literário de Victor Hugo. Comprovando que seu casamento tinha sido um impulso, ela se envolveu com o diretor de diálogos do longa, William Houston Price, que virou seu marido em 1941.

Seu contrato ainda previa cinco filmes, o que a fez imaginar uma nova vida em Londres. Aos 19 anos, comprou seu primeiro imóvel, uma casa nas imediações do Hyde Park, onde planejava passar os próximos anos. Entretanto, não morou mais do que alguns meses naquela residência. Naquele mesmo ano, explodiu a 2ª Guerra Mundial e, com os bombardeios que se seguiram, filmar em Londres tornou-se cada vez mais difícil.

Erich Pommer, o sócio de Laughton, estava negociando a distribuição de seus filmes em Nova York quando a guerra começou. Como era cidadão alemão, viu-se proibido de viajar de volta para a Inglaterra – apesar de ter sido praticamente expulso da Alemanha pelos nazistas. Sem alternativa, fechou um contrato com a RKO Pictures, cedendo sua nova estrela para o estúdio americano, para quem também passou a trabalhar. O próprio Laughton viria logo em seguida, diante da paralização da indústria cinematográfica britânica.

E foi assim, por acaso, que Maureen O’Hara desembarcou em Hollywood, fazendo sua estreia americana em “Vítimas do Divórcio” (1940), um melodrama escrito por Dalton Trumbo e dirigido por John Farrow.

Como a mudança aconteceu sem muito planejamento, a jovem atriz se sentiu como uma exilada, longe da família, dos amigos e de sua terra natal, compensando a solidão com o acúmulo de trabalho, a ponto de filmar até cinco longas por ano. Muitas dessas produções eram comédias musicais baratas que não mereciam o seu talento – uma delas, “A Vida é uma Dança” (1940), foi um dos dois filmes que Pommer produziu para a RKO.

A rotina de mediocriadade foi interrompida pela chegada de John Ford em sua vida. Em 1941, o gênio americano a escalou em um de seus dramas mais bem-sucedidos, “Como Era Verde o Meu Vale”, retrato de uma família de mineiros, que venceu o Oscar de Melhor Filme e rendeu a Ford sua terceira estatueta de Melhor Diretor.

O drama teve grande impacto, mas, ao assinar com a 20th Century Fox para participar de sua produção, Maureen acabou sofrendo com a limitação do estúdio. A especialidade da Fox eram filmes de aventura, e a atriz viu sua carreira seguir nessa direção, estrelando diversos longas de capa e espada e westerns nos anos que se seguiram. Ela fez sua estreia em Technicolor com “Defensores da Bandeira” (1941), na qual viveu uma enfermeira militar, e ficou tão bonita a cores que passou a ser requisitadíssima para as produções mais caras do estúdio. Logo, estrelou seu primeiro western, “Dez Cavalheiros de West Point” (1942), de Henry Hathaway, seguido por seu primeiro longa de piratas, “O Cisne Negro” (1942), de Henry King.

“Eu sempre fui uma moleca. E me pagaram para continuar sendo por toda a minha vida” – Maureen O’Hara

Com os papeis nestas aventuras, ela também estabeleceu sua reputação de não levar desaforo para casa. Quando Tyrone Power lhe roubou um beijo em “O Cisne Negro”, ela o nocauteou. Quando Paul Henreid tentou repetir a ousadia, em “O Pirata dos Sete Mares” (1945), ela conseguiu que ele fosse açoitado. Suas mocinhas não eram donzelas indefesas e nem ela própria se mostrava carente na vida real, mesmo vivendo longe da família e contando apenas consigo mesma para se livrar do assédio de alguns astros, como Errol Flynn, que ela mandou para aquele lugar durante um episódio de atrevimento.

Distante da Grã Bretanha, ela encontrou conforto em voltar a contracenar com seu velho amigo Charles Laughton em “Esta Terra é Minha” (1943), sob o comando de outro célebre exilado em Hollywood, o cineasta francês Jean Renoir. Na trama, os dois astros viveram professores determinados a resistir à ocupação nazista de sua cidade.

Maureen também estrelou seu primeiro filme noir naquele ano, “Beijo da Traição” (1943), vivendo um raro papel de femme fatale, com o cabelo tingido de preto para completar a estranheza da personagem em sua filmografia. Mas logo voltou à rotina das mocinhas das matinês, coestrelando a cinebiografia do pistoleiro “Buffalo Bill” (1944) e as aventuras marítimas “O Pirata dos Sete Mares” (1945) e “Simbad, o Marujo” (1947). Nesta última, contracenou com Douglas Fairbanks Jr., um dos maiores espadachins do cinema.

Ao mudar mais uma vez de gênero e estrelar seu primeiro filme infantil, acabou protagonizando um dos principais blockbusters da década, o clássico natalino “De Ilusão Também Se Vive” (1947), como a dona de uma loja de departamentos que contrata um Papai Noel bom demais para ser verdade. Ele não só se comunica com crianças em vários idiomas, como também parece saber tudo o que elas desejam. O problema é que ele acredita ser realmente Papai Noel, o que leva o psicólogo da loja a interná-lo como louco. E para livrar o simpático velhinho do hospício, a personagem de Maureen e sua filha (a fabulosamente precoce Natalie Wood) precisam abandonar o ceticismo para ajudar a provar num tribunal que ele é realmente quem diz ser: Papai Noel.

A história comoveu a América, foi indicada ao Oscar e rendeu ao cineasta George Seaton a estatueta de Melhor Roteiro. Adentrando o imaginário coletivo, tornou-se programa obrigatório da TV americana no período do Natal, sendo reprisada anualmente. Além disso, foi refilmado mais três vezes – duas especificamente para a televisão. O remake mais recente, feito para o cinema, foi lançado no Brasil como “Milagre na Rua 34” (1994), tradução literal do título original.

A popularidade da atriz, porém, continuou a ser desperdiçada pelo estúdio em produções de época e comédias inconsequentes. Mas ela ainda tinha a obrigação de fazer um filme por ano para a RKO. E calhou de ser um novo clássico, o noir “O Segredo de uma Mulher” (1949), dirigido por Nicholas Ray. Na trama, a personagem de Maureen assumia a tentativa de assassinato de sua pupila, uma cantora mais jovem, vivida por Gloria Grahame. Mas a ligação com a jovem, que ela tentara transformar em estrela após perder a própria voz, e a insistência em assumir o crime sugeriam uma história mais complexa, assinada por Herman J. Mankiewicz, o roteirista de “Cidadão Kane” (1941).

Em 1950, ela assinou contrato com a Universal Pictures e foi estrelar “Bagdad”, aventura romântica do subgênero maldosamente chamado de “areia e seios”, filmes repletos de odaliscas em trajes sumários, que o estúdio explorava desde “As Mil e uma Noites” (1942). A personagem da atriz era uma princesa beduína que voltava a seu reino, após estudar na Grã-Bretanha, para enfrentar um complô de renegados, responsáveis pelo assassinato de seu pai, e o cortejo de um árabe repulsivo, encarnado por Vincent Price. A fórmula voltou a ser evocada em “Paixão de Beduíno” (1951), mais um filme de princesa árabe que a irlandesa protagonizou, com Lon Chaney Jr. na pele do malvado assanhado.

Estes filmes alimentaram sua fama de estrela sensual, que ela complementava com papeis de mulheres duronas. Tanto que, para o western “Terra Selvagem” (1950), aprendeu a manejar o chicote, gabando-se de poder apagar um cigarro na boca de quem se arriscasse a duvidar de sua capacidade com o laço de couro.

No mesmo ano, ela retornou à pirataria, estrelando “Tripoli” (195O), aventura escrita e dirigida por seu marido Will Price. E, com isso, deu sua missão de esposa por cumprida, divorciando-se logo em seguida. Sobre os bastidores da filmagem, ela registrou em sua biografia que “Will até fez um bom trabalho, conseguindo ficar sóbrio durante a produção”.

“Filmei grandes clássicos com verdadeiras lendas que nunca ganharam um único Oscar. Isto é o showbiz” – Maureen O’Hara

1950 ainda marcou seu reencontro com John Ford e o começo de sua parceria com o astro John Wayne. A atriz foi escalada como par romântico do famoso cowboy americano em “Rio Bravo” (1950), último dos filmes de cavalaria de Ford, que usava a guerra contra os Apaches como justificativa para superar outro conflito traumático, a Guerra Civil entre Norte e Sul. Filmado em belíssimo preto e branco, como convinha a seu tom de desencanto, o longa se tornou um dos westerns mais cultuados de todos os tempos.

Maureen, Ford e Wayne voltaram a se juntar em “Depois do Vendaval” (1952), que ela considerava seu filme favorito. A trama finalmente permitiu à atriz usar seu sotaque original, vivendo uma irlandesa que virava a cabeça de Wayne, de regresso à sua cidade natal após uma carreira frustrada como boxeador na América. Mas o casamento não é aceito pelo irmão da jovem (Victor McLaglen), que decide não pagar seu dote. Como Wayne se recusa a confrontá-lo, a personagem de Maureen passa a considerá-lo um covarde, sem saber que ele decidira nunca mais lutar, após matar acidentalmente um adversário no ringue. Os dois cabeças quentes se confrontam até Wayne se dar por vencido e entregar a esposa para o cunhado, já que ela prefere fugir a manter um casamento sem dote. Sem saída, o cunhado cede, Maureen aceita orgulhosa virar a esposa modelo e o filme termina com uma boa briga entre os dois machos, que acabam amigos para sempre.

Em mãos menos capazes, esse enredo poderia se tornar uma comédia romântica bem convencional. Mas Ford e seu elenco fizeram de “Depois do Vendaval” uma obra de viés feminista, em que a personagem de Maureen consegue exatamente o que quer naquele mundo dominado por machões. Para completar, o filme inclui um dos melhores beijos da história do cinema, quando Wayne pega Maureen à força e ela derrete em seus braços, desarmando-se antes de reagir com um tapa. A química da dupla causou comoção, inspirando até uma homenagem no filme “E.T.” (1982), mas só Ford foi reconhecido, conquistando seu quarto Oscar de Melhor Direção.

Seus contratos não permitiam que ela escolhecesse filmar apenas o que queria. Mas isso não a impediu de se divertir. Novamente convocada pela RKO, ela adorou estrelar “Os Filhos dos Mosqueteiros” (1952), um entretenimento ligeiro em que os filhos dos Mosqueteiros originais eram convocados para salvar a França. O detalhe é que Athos teve uma filha, a personagem de Maureen, que, em mais um papel de mulher atrevida, crescera como uma espadachim tão destemida quanto o pai. Para fazer jus ao papel, a atriz teve aulas de esgrima com o professor de Douglas Fairbanks Jr., e se orgulhou do desempenho. Esse tipo de personagem também marcou seu pioneirismo como heroína de ação em Hollywood.

Ela continuou desempenhando papeis de mocinhas corajosas em novas e contínuas aventuras, como a diversão de capa e espada “Contra Todas as Bandeiras” (1952), no qual viveu uma capitã pirata espadachim capaz de enfrentar Anthony Quinn e Errol Flynn, e os westerns “A Rainha dos Renegados” (1953), em que foi dona de um saloon, e “A Grande Audácia” (1953), em que enfrentou índios num “forte apache”, enquanto aguardava a oportunidade de voltar a trabalhar com seu diretor favorito.

Foram, porém, apenas mais dois longas com Ford, “A Paixão de uma Vida” (1955), coestrelada por Tyrone Power, e “Asas de Águias” (1957), novamente com John Wayne. Ambos eram cinebiografias de militares obscuros – o personagem real de “Asas de Águias” tornou-se roteirista de cinema e amigo de Ford – e não resultaram em experiências tão prazeirosas para a atriz.

Pelo menos, o papel em “Depois da Tormenta” ainda lhe rendia convites para estrelar romances. Mas “O Magnífico Matador” (1955), coestrelado por Anthony Quinn, foi considerado pela crítica e por ela própria apenas tedioso.

Aos 35 anos, ela explorou pela última vez sua famosa sensualidade, estrelando “O Suplício de Lady Godiva” (1955). A produção tornou-se célebre por filmar Maureen realizando a famosa cavalgada nua da personagem-título. O lançamento atraiu multidões ansiosas por ver o que a publicidade anunciava, mas a atriz apareceu com uma peruca gigante, que cobria toda a sua intimidade.

O sucesso do filme mostrou que ela continuar desejada, mas a atriz sabia que, pelos padrões etários de Hollywood, seus dias de estrela estavam contados. O que a levou a interpretar, pela primeira vez, uma vilã assumida em “Lisboa” (1956), um thriller de mistério e assassinato. Após as filmagens, ela deu o braço a torcer à sua amiga Betty Davis, reconhecendo, após uma carreira repleta de mocinhas, que viver a malvada era muito mais divertido.

Vendo diminuir os papeis que lhe eram oferecidos, a atriz fez um breve retorno ao cinema britânico. E até isso rendeu outro clássico em sua filmografia: o suspense “O Nosso Homem em Havana” (1959), do mestre do gênero Carol Reed. Um dos grandes filmes de espionagem pré-007, o longa acompanhava Alec Guinness como um vendedor frustrado em Havana, que, sem querer, descobria uma maneira de ganhar dinheiro fácil: fingir-se de espião. Forjando relatórios para o serviço de espionagem britânico, ele fica rico e famoso como um dos mais efetivos agentes secretos do mundo. Mas tudo o que informa é invenção. O problema é que seu golpe atrai atenção de agentes russos, que acreditam em suas mentiras e passam a perseguir seus amigos.

Maureen interpretava a assistente/interesse romântico de Guinness, mas nos bastidores só tinha olhos para Che Guevara, com quem travou amizade durante a produção, filmada realmente em Cuba. Os dois varavam a noite discutindo a situação política da Irlanda, após Maureen descobrir que o sangue latino do mito revolucionário corria em veias irlandesas. “Ele era Ernesto Guevara Lynch”, maravilhou-se a ruiva, descrevendo o encontro em seu livro de memórias.

Os anos 1960 marcaram uma nova fase em sua carreira, inaugurada por outro blockbuster, “Operação Cupido” (1961). No clássico da Disney, a atriz viveu a mãe das gêmeas interpretadas pela estrela mirim Hayley Mills. A trama girava em torno de duas meninas (vividas por Mills) que descobrem, durante um acampamento de verão, que eram irmãs separadas ainda bebês. Após o divórcio dos pais, cada uma foi criada como filha única por um dos parentes. Elas decidem trocar de lugar para conhecer o resto da família e, empolgadas, resolvem juntar os pais novamente, nem que para isso precisem sabotar os planos do segundo casamento de seu pai (Brian Keith). Foi um fenômeno de bilheteria, que rendeu três continuações e inúmeros remakes – além de uma versão com Lindsay Lohan lançada em 1998, há diversas refilmagens asiáticas.

O sucesso de “Operação Cupido” apresentou Maureen para uma nova audiência, que ela continuou explorando em comédias infantis como “As Férias de Papai” (1962) , ao lado de James Stewart, “Os Nove Irmãos” (1963), com Henry Fonda, e “Uma Família Biruta” (1970) , com Jackie Gleason.

Paralelamente, ela ainda cavalgou até o entardecer dos faroestes, aparecendo em alguns dos últimos clássicos da era de ouro do gênero.

“Eu sou irlandesa. Eu me mantive irlandesa. E as mulheres irlandesas não se deixam abater” – Maureen O’Hara

No mesmo ano em que estrelou “Operação Cupido”, voltou a fazer par com Brian Keith em “O Homem Que eu Devia Odiar” (1961), que marcou a estreia de um mestre do cinema, o diretor Sam Peckinpah. Mas seus principais westerns do período foram reencontros com John Wayne.

A dupla voltou a mostrar sua química volátil em “Quando um Homem É Homem” (1963), que trazia, já no cartaz, Wayne dando palmadas na levada Maureen. Do mesmo diretor, Andrew V. McLaglen, a atriz ainda fez “Raça Brava” (1966), novamente com Brian Keith e James Stewart, antes de se despedir do gênero, apropriadamente ao lado de Wayne, em “Jake Grandão” (1971). Na verdade, o próprio gênero parecia se despedir do cinema, com cada vez menos produções sendo rodadas – até “Jake Grandão” não foi o sucesso esperado. John Wayne morreria no fim da década, simbolizando o fim de uma era.

Maureen percebeu a mudança de humor de Hollywood e decidiu, após sua última parceria com Wayne, que era hora de se aposentar, mudando-se para as Ilhas Virgens com um novo marido, proprietário de uma pequena linha aérea caribenha. Mesmo assim, ainda recebia convites para filmar, que ela gentilmente recusava. Só foi abrir uma exceção após 20 anos longe das câmeras.

O diretor Chris Columbus não sabia que a atriz tinha se aposentado e escreveu o papel principal de “Mamãe Não Quer que eu Case” especialmente para ela: uma mãe irlandesa irascível e cheia de energia. Sem desistir de contar com a estrela, procurou seu irmão, o produtor Charles B. Fitzsimons, pedindo que lhe enviasse o roteiro. Fitzsimons escreveu sobre o texto “Isto você deve fazer!”, e recebeu de volta uma bilhete, escrito apenas “Isto eu faço!”

A estrela só fez uma condição para filmar com Columbus: ver se tinha química com o intérprete de seu filho. Mas ao conhecer John Candy, ficou impressionada. “John Candy se tornou um dos meus parceiros favoritos”, ela escreveu em suas memórias. “A abrangência de seu talento me surpreendeu. Eu não esperava que fosse bom ator, mas não demorei a perceber que estava diante, não só de um gênio da comédia, mas de alguém com extraordinário talento dramático. Me lembrou de Charles Laughton”.

O filme também marcou seu reencontro com o velho parceiro de piratarias Anthony Quinn, que na trama vivia seu vizinho e interesse romântico.

O prazer de realizar a comédia – sucesso no cinema, em vídeo e em inúmeras reprises na TV – inspirou-a a sair provisoriamente do retiro para gravar três telefilmes até o ano 2000. Fez seu último trabalho aos 80 anos. Em “The Last Dance”, interpretou uma ex-professora que, internada num hospital por problemas da idade, continuava a dar lições a seu enfermeiro (Eric Stoltz), que na infância havia sido seu aluno.

Maureen O’Hara deu mesmo muitas lições em toda a sua carreira. Inclusive para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que conseguiu indigná-la até ao lhe dar um Oscar honorário em evento de gala realizado em outubro de 2014. Mostrando que continuava sem aceitar desaforo, ela protestou durante a cerimônia, quando seu longo discurso de aceitação foi cortado para que ela fosse conduzida para fora do palco em sua cadeira de rodas.

De todo modo, ela nunca esperou muito de Hollywood, como deixou claro em seu último sucesso, o livro de memórias “Tis Herself”, que se tornou um best-seller em 2004. Repleto de comentários ferinos, a publicação desnudou a hipocrisia da indústria cinematográfica com uma acidez muito lúcida.

Na ocasião, um jornalista quis saber seu segredo: como ela ainda conseguia se manter uma octogenária tão bela, voluntariosa e cheia de vida. Ela explicou: “Eu sou irlandesa. Eu me mantive irlandesa. E as mulheres irlandesas não se deixam abater.”

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Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna