Crítica: Johnny Depp se destaca no frustrante Aliança do Crime

 

O burburinho acerca da atuação de Johnny Depp, depois de muitos anos fazendo caras e bocas em blockbusters fracassados, é o principal chamariz de “Aliança do Crime”, dirigido por Scott Cooper (“Coração Louco”). E ele, de fato, é o destaque deste filme de gângster, que não demora a frustrar toda a expectativa gerada por sua premissa, apesar de começar muito bem – a primeira sequência em close-up, durante o interrogatório do gângster vivido por Jesse Plemons (série “Breaking Bad”), é o ponto alto da produção.

“Aliança do Crime” é um longa-metragem desequilibrado, que joga equivocadamente cenas fortes em meio a um ritmo arrastado, além de trazer um protagonista mal desenvolvido. Depp, porém, sobra no papel de James “Whiter” Bulger, um dos maiores gângsteres da era moderna e que, por anos, foi um dos criminosos mais procurados do FBI. Sua atuação se mostra realmente muito diferente das que vinham lhe transformando em piada, menos afetada e contaminada pelos tiques adquiridos depois que viveu o pirata Jack Sparrow na franquia “Piratas do Caribe”. Ainda existem alguns momentos de deslize, mas o ator consegue se controlar bem.

E olha que o ambiente não era muito favorável. Com uma maquiagem esquisita e pesada, que dá a seu vilão uma aparência de cadáver, e com um dos piores usos de lentes de contato da história recente do cinema, Depp ainda precisa se virar com um personagem irregular. Durante todo o tempo, a identidade do protagonista é construída por comentários de terceiros, deixando o desenvolvimento de sua personalidade de lado, apenas para justificar destaque aos personagens satélites.

Com um elenco espetacular, o longa reúne atuações consistentes de Joel Edgerton (“O Grande Gatsby”), Benedict Cumberbatch (“O Jogo da Imitação”), Rory Cochrane (“Argo”), David Harbour (“O Protetor”), Kevin Bacon (série “The Following”), Adam Scott (série “Parks and Recreation”), Juno Templo (“Killer Joe – Matador de Aluguel”), Corey Stoll (“Homem-Formiga”), Julianne Nicholson (série “Boardwalk Empire”), do já citado Jesse Plemons e Peter Sarsgaard (“Lanterna Verde”), o mais inspirado de todos. E é só pelo calibre dos coadjuvantes que a trama consegue deslanchar.

Os intérpretes, porém, precisam superar o problema da falta de objetividade do longa. Scott Cooper parece não saber muito bem qual é o melhor meio de contar sua história. Perdido em falatórios, que resultam em pouca ação, encontra dificuldades para encaixar as cenas mais violentas e outras situações que despertem o interesse do espectador. É como se essas cenas fossem inseridas no tranco. Desconexas de todo o resto, causam estranhamento. Entretanto, representam os únicos momentos em que é possível vislumbrar o “verdadeiro” Whiter Bulger, tornando sua ameaça real na trama. Duas sequências são um bom exemplo disso: a conversa na mesa com David Harbour e a despedida de Julianne Nicholson. Ambas estão próxima uma da outra, mas só acontecem depois de muito filme decorrido.

Mais do que na montagem, um trabalho até esforçado de David Rosembloom (“O Informante”), o problema do filme está mesmo no roteiro, assinado pelo estreante Mark Mallouk e o irregular Jez Butterworth (“James Brown” e “007 Contra Spectre”), com suas personagens super ou subdimensionadas, que acabam por desinteressar o público. E aí não há técnica que dê jeito, mesmo que a produção esteja repleta de profissionais competentes. Caso da direção de fotografia do japonês Masanobu Takayanagi (“A Perseguição”), que consegue mesclar muito bem luz e sombra e trabalhar com planos diversos, e o desenho de produção assinado por Stefania Cella (“A Grande Beleza”), com arte de Jeremy Woodward (“O Verão da Minha Vida”), cenografia de Tracey A. Doyle (“Quebrando a Banca”) e figurinos de Kasia Walicka-Maimone (“Foxcatcher: Uma História Que Chocou o Mundo”), competente na recriação de várias décadas.

Cansativo, desinteressante e frustrante, “Aliança do Crime” tinha personagem, elenco e uma excelente equipe técnica, mas lhe faltou a coisa mais importante em um filme: quem soubesse como filmá-lo.

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Cecilia Barroso é jornalista cultural, cinéfila e editora do Cenas de Cinema.