Crítica: Bata Antes de Entrar encontra diversão na tortura erótica

 

Eli Roth fez “Bata Antes de Entrar” (2015) depois de “Canibais” (2013), seu filme-homenagem a “Canibal Holocausto” (1980), mas com as dificuldades enfrentadas para distribuir aquela obra, o novo trabalho acabou chegando antes aos cinemas. Muito provavelmente por ser um exemplar mais leve da filmografia sangrenta do cineasta, que ganhou notoriedade por conta de “O Albergue” (2005).

Vale lembrar que “O Albergue” surgiu durante um momento particularmente intenso dos filmes de horror, a fase ultraviolenta dos chamados “torture porns”. A mistura de sexo e tortura ainda está presente em “Bata Antes de Entrar”, mas seu terror é muito mais psicológico do que físico, num diálogo com “Violência Gratuita” (1997), de Michael Haneke. Pena que Eli Roth não tenha a classe de Haneke para compor a história do homem de família (Keanu Reeves) que cai na teia de duas moças sedutoras, ao abrir a porta de sua casa para um inferno crescente.

A premissa é típica de VHS pornô. Duas gostosas batem na porta de um pai de família que passa o fim de semana sozinho. Apropriadamente molhadas de chuva, elas só querem usar o telefone. E, claro, tirar logo as roupas para materializar a cena de sexo a três.

O fato de Keanu Reeves estar exageradamente canastrão – como se ele não estivesse levando a sério o filme – contribui para que a sensação de suspensão da descrença seja abalada. Reeves é um ator limitado, mas já demonstrou ser mais funcional em outras ocasiões. Assim, o filme sobra nas mãos das duas meninas, as chilenas Lorenza Izzo (mulher do diretor) e Ana de Armas. Elas dominam as cenas em todos os sentidos, explorando a fraqueza masculina para benefício próprio e impondo suas presenças até quando deixam de ser bem-vindas.

Por mais que os filmes de horror tenham como característica recorrente punir a promiscuidade com a morte, Roth parece não ter a intenção de criar um conto moral sobre tentação e pecado. Embora se preste ao formato de parábola sobre infidelidade conjugal, “Bata Antes de Entrar” está mais para uma sátira desse tipo de horror moralista, assumida na diversão delirante das duas atrizes – embora as acusações de pedofilia brandidas contra o protagonista tendam a cruzar a fronteira para o tipo de acerto de contas de “Menina Má.com” (2005).

Na verdade, a ideia não é original. “Bata Antes de Entrar” é um remake de “Jogo Mortal” (1977), um suspense obscuro, mas cultuado, dirigido por Peter S. Traynor e estrelado por Sondra Locke e Colleen Camp, que aparecem no filme de Roth como coprodutores. O original era sombrio, perigoso e tratado quase como tabu, pelo conteúdo sadomasoquista. Já a refilmagem se dá com cores vivas, clima lúdico e liberada para maiores de 14 anos no Brasil.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.