Crítica: A Travessia mostra porque Robert Zemeckis é um dos grandes cineastas de sua geração

Crítica: A Travessia mostra porque Robert Zemeckis é um dos grandes cineastas de sua geração

 

“A Travessia” anuncia em seu cartaz que se trata de um filme do mesmo diretor de “Náufrago” (2000) e “O Voo” (2012). A diferença de 12 anos entre os dois filmes se refere ao tempo em que Robert Zemeckis se dedicou à animação em experiências de captura de movimento. Em suma, “Náufrago” e “O Voo” foram seus últimos trabalhos com atores reais. Mas, por coincidência, têm uma forte relação com a premissa de “A Travessia”.

Nesses três longas, Zemeckis se mostra obcecado pela queda, que nos filmes anteriores é elemento central da trama, mostrada como um espetáculo. Em “A Travessia”, a queda é uma possibilidade constante. Mas o espetáculo da trama está no fato dela não acontecer. Ao final, a “trilogia” se resume ao esforço de um homem em sobreviver à queda, deixando sua marca – seu legado – ao escapar da morte.

A incrível história do equilibrista Philippe Petit já foi contada no documentário vencedor do Oscar “O Equilibrista” (2008), de James Marsh. Mas o filme estrelado por Joseph Gordon-Levitt (“Como Não Perder Essa Mulher”) também faz justiça ao feito, com auxílio de efeitos realistas, que projetam a vertigem em 3D e celebram as Torres Gêmeas de Nova York em sua glória anterior a 11 de setembro de 2001. rnrnO ano é 1974, quando Petit decide realizar a maior proeza já feita por um equilibrista, andar sobre um cabo de aço estendido entre os prédios mais altos do mundo. O próprio protagonista conta sua história – na tela, por meio de narração do ator, e nos bastidores, como consultor da trama.

Em vários momentos, Petit reforça que não é um artista de circo, ele é um artista e ponto final. Sua arte é performática. Acontece uma vez na vida. Mas impacta a posteridade. Não é muito diferente do grafite, como ato de desobediência civil e transgressão. Toda a preparação para a realização da obra, por sinal, é feita como se ladrões planejassem um grande golpe. Com auxílio de seu grupo, ele pretende cometer um crime que só tem uma vítima em potencial: ele próprio.

A capacidade de projetar tanto o suspense quanto a tensão do ato proibido e suicida de Petit, ao mesmo tempo em que transmite as emoções contraditórias do personagem, entre a possibilidade da morte, a realização de uma vida e a profunda paz de espírito, é, por sua vez, o grande feito de Zemeckis. E isto é atingido com precisão pelas imagens fabulosas que, aliadas à tecnologia IMAX 3D, reproduzem a sensação de caminhar sobre um fio acima de um grande vazio. Para quem tem medo de altura, o filme é um convite a desafiar esse medo.

A um passo da eternidade, Petit se aproxima da solidão dos demais sobreviventes de Zemeckis. Mesmo que tenha contado com parceiros importantes para realizar seu grande ato, o feito se dá com ele sozinho, quando encontra sua força e seu nirvana. A cena em que um pássaro se aproxima para vê-lo de perto, por exemplo, tem uma carga espiritual poucas vezes vista no cinema.

“A Travessia” também demonstra que os 12 anos em que Zemeckis privilegiou a tecnologia e as inovações de computação gráfica não foram desperdiçados. O filme é uma aula de como efeitos visuais grandiosos e o uso da tecnologia 3D podem ser utilizados de forma artística, em prol da apreciação fílmica. O resultado vai muito além do passeio de parque de diversões projetado rotineiramente nas telas dos multiplexes, demonstrando que Zemeckis é um dos grandes pioneiros do uso de tecnologias de ponta no cinema, mas, mais que isso, é também um dos grandes cineastas de sua geração.

 

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.